TDAH, A VIDA À DERIVA
Nota de 2026: Resgatando a essência do blog, hoje quero compartilhar um texto de 2017 que explica por que, por muito tempo, este espaço se chamou "A Vida à Deriva". Mesmo em fase de reconstrução, é preciso olhar para o barco sem remos que todos nós já fomos um dia.
O primeiro título que dei ao blog foi esse: A VIDA À DERIVA. Era assim que eu me sentia na época, e é assim que todos nós já nos sentimos em alguns momentos da vida.
Em vários momentos pensei em desistir... Mas como desistir? Não existe essa possibilidade na vida...
Sempre recebo e-mails com esse sentimento. As pessoas se sentem perdidas, sem saber que rumo tomar, ou melhor, que rumo dar à vida. Exatamente como na foto acima, um barco sem remos perdido no meio do nada.
E o que provoca essa sensação?
A sucessão de falhas. Ao descobrir que cometeu o mesmo erro, por desatenção, por inobservância das regras, por não se ater aos detalhes, por não se lembrar de já ter vivenciado situação análoga, por ter adiado pela enésima vez...
Ninguém avalia a sensação de mortificação. A enorme vontade de fugir para não encarar as pessoas.
Mas a vida segue. Mesmo que não queiramos, ela segue. E estranhamente o último episódio não deixa cicatrizes. Certa vez um médico disse que a mulher tem mais de um filho porque ela esquece a dor do parto. É isso que vivemos; nos esquecemos da dor que sofremos na última falha. E por esquecermos, cometemos falhas semelhantes outra vez, e outra, e outra, e outra...
E a vida escapa de nossas mãos. De longe observamos amigos e familiares que sabem conduzir suas vidas com tranquilidade e linearidade; com tamanha tranquilidade que estão preparados para possíveis reveses. Não nós! Jamais estamos preparados para nada. Nem para as situações mais previsíveis da vida. E somos surpreendidos pelo óbvio.
E estamos desprotegidos, no meio do nada. Sem saber para onde ir; ou com que meios ir.
Mas, mais um dia amanhece. De alguma forma aquela chaga aberta ontem amanheceu cicatrizada. Uma sensação de um sonho ruim pesa em nossa mente. Mas e a vida destroçada de ontem? Uma névoa cobre nossa memória e o ontem toma ares de um passado distante. Tão distante que não deixou marcas ou lembranças. E estamos prontos novamente. Prontos para repetir os erros; vivenciar o sabor amargo das derrotas; sentir a sensação de estar à deriva; e acordar como novo. Para errar de novo.
E dirão os idiotas da objetividade: Todo mundo erra! Sim, mas as pessoas aprendem com os erros. Não os TDAHs, nossa vida se repete como naquele filme que a moça perdeu a memória em um acidente e a família repetia incessantemente o fragmento de vida de que ela se recordava. Mas, em geral, não temos uma família de filme, e sim pessoas que cobram e criticam a cada erro, jogando-nos no rosto tudo o que já fizemos de errado ao longo da vida.
E vida que segue! E nela embarcados seguimos. Mas carregamos o singular sentimento de que ela também esta à deriva...
Em tempo: Mudei o nome do blog por sugestão de minha médica, Dra Valéria Modesto, que não concordava com um título tão depressivo numa fase da minha vida que deveria ser positiva, de reconstrução. Rebatizei o blog por concordar com ela, mas ainda acho que A VIDA À DERIVA é muito mais fiel ao que vivemos.
Estar à deriva e repetir os mesmos erros não é apenas 'falta de memória', mas sim o ciclo da Autossabotagem no TDAH. Para reconstruir, precisamos primeiro admitir que o mar está agitado."
Se você não quer mais se sentir à deriva, procure ajuda profissional através da ABDA: ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DO DÉFICIT DE ATENÇÃO ABDA: ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DO DÉFICIT DE ATENÇÃO

ha.... só quem tem tdah sabe o que é isso!
ResponderExcluiragora mesmo, eu estou num dilema... peço o auxilio de Deus, pois... fico sem saber como prosseguir... e como lidar com a situação q estou passando . mas o que ajuda um tdah, é pensar positivo e seguir em frente... isso mesmo. seguir em frente, se amar se aceitar sempre.. por mais q seja dificil.
se cobrar por atitudes sempre certinhas, faz com que soframos mais. então é erguer a cabeça. fé em Deus
Otávio, você falou em "ver o que é tão difícil para nós ser tão fácil para outras pessoas, a dificuldade de continuar após os erros serem bem maiores que os acertos, a rejeição das pessoas que conhecemos, etc". Nós portadores de TDAH temos que assumir pra nós mesmos que "as outras pessoas", os neurotípicos, não são parâmetro pra nós. Porque nós não somos neurotípicos. Nosso córtex pré-frontal funciona de uma maneira completamente diferente da deles. As coisas que todo mundo faz podem ser façanhas incríveis para quem tem algum transtorno, ou doença, ou deficiência. O TDAH é o primeiro, não é deficiência nem doença, mas todos eles têm características comparáveis. Um exemplo bem radical: todo mundo consegue respirar, não é? Respiração é até certo ponto voluntária, uma pessoa considerada normal pode respirar, controlar o ritmo que respira, e até certo ponto, suprimi-la, prendendo a respiração. Mas quem está com pneumonia, enfisema, portadores de asma em crise, ou quem quebrou uma das primeiras vértebras do pescoço não consegue controlar a respiração como eu você podemos. Nossa atenção, nossa memória e até coisas sutis como nossa disciplina e nossa força de vontade são muito menos controláveis e voluntárias do que nas pessoas neurotípicas. Uma pessoa neurotípica dizer que eu não estou prestando atenção nela porque não quero, ou porque não ligo pra ela é tão injusto quanto eu dizer para uma pessoa em uma crise de asma que ela só precisa relaxar e controlar a respiração. Eu consigo meditar apenas controlando a respiração, mas eu não estou tendo uma crise de asma, entende? Minha atenção é como um disjuntor mal dimensionado: de vez em quando é sobrecarregado e “cai” em situações em que outras pessoas conseguem manter a atenção normalmente. Um portador de asma consegue controlar a respiração quando não está em crise, e eu posso prestar atenção numa aula ou numa palestra num dia bom. Numa fase boa, não esqueço de pagar contas, de ir aos compromissos, e às vezes consigo até implementar um hábito novo ou chegar na hora. Mas há dias, ou épocas em que não consigo nada disso. Todo mundo consegue não é parâmetro para quem tem um transtorno, é injusto comparar o meu funcionamento com o de alguém que não o tem.
ResponderExcluirDébora Grande, você medita? Me falaram que faz muito bem.
ResponderExcluirEssa sua frase é muito boa:"Uma pessoa neurotípica dizer que eu não estou prestando atenção nela porque não quero, ou porque não ligo pra ela é tão injusto quanto eu dizer para uma pessoa em uma crise de asma que ela só precisa relaxar e controlar a respiração". É muito difícil uma pessoa entender a nossa situação.
Eu li o texto - com muita dificuldade de ir até o fim, é claro -, e imediatamente comecei a chorar, porque é como se olhar no espelho através do relato e não gostar do que vê: a sucessão de fracassos, a autosabotagem, e todas as outras peculiaridades da vida com TDAH. Eu tinha um conceito tão raso do que era esse transtorno, mas descobri que é um transtorno complexo que compromete a vida de uma pessoa que sofro com a doença, e havia aspectos da minha vida pros quais eu passei anos sem dar atenção, e de repente descobro o TDAH como ele realmente é.
ResponderExcluirO nome atual do blog é muito mais coerente com a busca pelo autoconhecimento. Viver à deriva indica que está se deixando levar pelos constantes erros, sem olhar pra dentro de si e simplesmente aceitando que não há solução. A cortina de névoa que nos impede de reconhecer atitudes que já tomamos e foram inadequadas, se dissipa quando conseguimos conhecer a nós mesmos, e isso é reconstrução, todo dia, dia a dia, como um novo amanhecer. Reconstruir a vida mesmo com o TDAH, é possível, nem que seja pela enésima vez, nem que seja passando a borracha e apagando as pistas, com a mente vazia e o coração pleno, abertos aos riscos de errar de novo sem medo. Ficar à deriva jamais!
ResponderExcluirCaramba, Henia, você escreve muito bem... Eu tenho dificuldade com o tempo, não nessa intensidade que você narra; mas tenho. Ele sempre me surpreende; chega e vai quando quer e sem que eu perceba. Tenho uma característica, que não sei se outras pessoas tem: lembro-me muito pouco da minha infância. Poucos detalhes, poucas imagens...
ResponderExcluirTenho essa mesma dificuldade em guardar mágoa. De um dia para o outro ela passa; às vezes em questão de horas. Isso dificulta os relacionamentos com não TDAHs, eles não compreendem...
ResponderExcluirAmigo, trate-se! Leve a sério seu tratamento. Essa insatisfação infinita, essa impulsividade incontrolável me fizeram tomar decisões absolutamente erradas e equivocadas. O tratamento não cura, apenas minimiza os sintomas; mas cá entre nós, é melhor reduzir o número, ou força dos inimigos que temos de enfrentar diariamente.
ResponderExcluirBoa sorte
Alexandre
Olá.tenho uma filha adolescente com TDA descobrimos a dois meses ela não tem hiperatividade. Já não sei o que fazer estou totalmente sem rumo não sei como ajuda-la.ela tem muita dificuldade de ter amigos e mante-Los.já fez terapias,tento conversar...mas nada adianta.ela e muito quieta sei que está sofrendo.apesar de tudo sempre tirou notas boas no Colégio.agora está tomando ritalina 10mg melhorou muito a atenção, organização com esse medicamento. Se alguém puder me ajudar me orientar.
ResponderExcluirEstou a 3 horas lendo esse blog ... estou chorando por pensar que tenho isso ...
ResponderExcluirAlguem de goiania conhe algum profissional que trate isso ?
Alguem daqui para trocar ideia ?
Sabe , estou bastante desiludida ...me formei em direito , passei na oab 1 ano antesde me formar... tenho tudo nas maos para começar uma vida profissional que sempre sonhei .... mas não sai nada do papel, nunca saiu .
Fracassos passados (por conta dessa doença) me deixam com medo de fracassar outra vez . Como é triste , como é desesperador .
Nao sou burra , não tenho preguiça ( muito pelo contrario, tenho uma energia imensa de fazer tudo .... mas nao faço nada que seja necessario mais de 30 minutos de concentração).
Se alguem puder falar um pouco comigo , fico agradecida
Ótimo relato.
ResponderExcluirSou Contador, e me identifiquei com sua história. Afinal, nós que trabalhamos com burocracia torna a vida ainda mais difícil.
Porém, vamos em frente! Temos as virtudes provenientes do TDAH. Como você mesmo falou, conseguiu se destacar na área acadêmica sem nenhuma disciplina.
Me vi em seu relato, em tudo, até na profissão .
ResponderExcluirNão devemos nos ver á deriva se mantermos esse pensamento com certeza o nosso subconsciente vai trabalhar para que nos tornemos cada vez mais, pessoas incapazes de realizar uma vida melhor.Então o que devemos fazer?em primeiro lugar acreditar que o tdah não é uma doença e sim um transtorno mental que pode ser revestido atravez de frazes repetidas como por ex:Eu sou saudável a minha mente é perfeita e maravilhosa. Repetindo todos os dias 20 vezes eu tenho certeza que você vai se sentir uma pessoa mais confiante nas suas atitudes.Repita essa pquena fraze durante o resto de sua vida. Se funcionou para mim com certeza funcionára pra você.
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