A LENDA DO PRÍNCIPE COM TDAH: O MONSTRO DA INSATISFAÇÃO E O CASTELO DA SOLIDÃO





Nota do Autor (Atualizada em 2025): Escrevi esta lenda há anos, mas ela nunca foi tão atual. Ela fala sobre o "custo invisível" do TDAH não tratado: a insatisfação crônica que corrói sonhos e patrimônios. Muitos de nós crescemos ouvindo que éramos "príncipes" (cheios de talento), mas acabamos nos sentindo mendigos de nossa própria vontade. Se você já se sentiu um estranho no seu próprio castelo, esta lenda foi escrita para você.


Conta a lenda que no interior de um reino distante vivia um príncipe jovem, belo, rico e muito, muito triste. Vivia solitário em seu castelo, cercado de luxo e tristeza.
O príncipe não foi assim na sua vida inteira. Na adolescência foi um rapaz ativo, cheio de amigos e sonhos. Ele não sabia, mas no fundo de sua alma ele cultivava um monstro que mais tarde o dominaria: a insatisfação. Ao atingir a idade adulta o príncipe perdeu-se. Encantou-se e frustrou-se com vários cursos superiores; experimentou várias profissões; das mais nobres às mais plebeias; tentou as artes: o teatro, a música, a literatura. Nada. 
Após um início promissor em quase tudo que experimentava, o príncipe era invadido por uma insatisfação que o dominava completamente, paralisava sua vontade, suas ações, sua coragem. E ele abandonava mais aquela tentativa. Ganhava mais uma cicatriz, mais uma marca naquela alma já tão repleta delas.
Os sucessivos fracassos e abandonos foram criando naquele príncipe uma tristeza e um constrangimento cada vez maiores. Passou a evitar seus pares; não tinha do que se vangloriar, tornou-se ácido crítico da nobreza de seu país chamando-a de sanguessuga e parasita da sociedade. Começou a ser mal visto pela casta superior que passou a isolá-lo.  Por viver num reino onde a rigidez social era a regra, começou a isolar-se de todos. Longe dos nobres por opção e das classes baixas pelo rígido costume de seu país, o príncipe fechou-se em seu castelo vivendo para os livros e os parcos escritos que produzia. Somente quando era absolutamente necessário, comparecia às solenidades reais onde era alvo de chacotas por usar sempre as mesmas roupas desgastadas e antiquadas. Sua absoluta incompetência para gerir a fortuna que herdara era folclórica no reino e alvo de piadas e escárnio nas altas e baixas rodas sociais.
Ao atingir a meia idade o príncipe havia vendido quase todas as suas terras, títulos e obras de arte. Desfizera-se também de laços de afeto e amor e via-se na iminência de ter de vender seu castelo e acabar sozinho e abandonado numa casa modesta que outrora fora ocupada por uma das criadas de sua mãe.
Vagando pelos enormes aposentos do castelo o príncipe procurava algo que explicasse sua eterna e profunda insatisfação. Olhava para trás tentando encontrar em sua vida pregressa o momento em que foi dominado por essa doença; uma estranha doença que transformou sua vida num redemoinho infinito.
Um sofrimento difuso e silencioso tomava cada fibra de seu corpo, lhe oprimia o peito e tolhia sua iniciativa de reerguer-se.
Quem olhava de fora estranhava e ridicularizava a vida aparentemente infrutífera daquele príncipe. Riam da sua incompetência para a vida, para ganhar dinheiro, para manter seus casamentos, seus amigos e sua posição social.
Mas lá dentro, na solidão escura do castelo, o príncipe lutava para abrir as janelas enferrujadas e emperradas na desesperada esperança de que a luz do sol e o ar puro renovassem suas forças , as forças de sua alma, e iluminassem um novo caminho em sua vida; menos sujeito à ação desse terrível monstro da insatisfação. 
Ao mesmo tempo, sonhava com o dia em que os cientistas do reino descobririam a cura para essa estranha doença que praticamente incapacita pessoas inteligentes e de físico perfeito para uma vida plena, feliz e produtiva.


"Reflexão de 2025: A boa notícia é que, ao contrário da lenda, nós não precisamos mais esperar que os cientistas do reino descubram a cura. Hoje, a ciência já abriu as janelas desse castelo. O diagnóstico e o tratamento multimodal são a luz do sol que o príncipe tanto buscava. Se não trouxe a cura, trouxe um convívio mais saudável e produtivo para os portadores de TDAH. A insatisfação ainda pode nos visitar, mas ela já não tem as chaves do nosso castelo."

Para entender como reerguer o seu reino interno, procure ajuda especializada e conheça o trabalho da ABDA.

Você já sentiu que o seu 'castelo' estava desmoronando por causa da insatisfação? Deixe seu comentário e vamos reconstruir nossas histórias juntos." 

Comentários

  1. Sou só eu ou vc tambem nao consegue administrar os seus amigos, sua vida... Parece que esta tudo ruindo por minha causa.

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    1. Bem vindo ao grupo!
      Não tenho mais amigos, perdi-os todos por absoluto abandono de minha parte.
      Administrar a vida é uma arte que ainda não domino, estou lutando...
      Um abraço e obrigado
      Alexandre

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    2. Alexandre é engraçado isso mas acabei de perceber também que não tenho amigos, alias eu nunca tive nenhum mesmo, além de que nunca tive vida social, nunca gostei de pessoas rsrs, sempre que tive uma oportunidade de ter um contato fazia de tudo pra me afastar, mesmo por que tudo pra mim é o extremo...gosto ao extremo, desgosto ao extremo..essas coisas... Ai como é dificil se relacionar comigo, sei por que as vezes nem eu mesmo me aguento.

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  2. Me sinto como o protagonista da história. Não que tenha uma vida de rei. Mas tive um boa criação nunca me faltou nada, e a carga da educação que ganhei e o meio onde vivo me obriga a perseguir um bom embrego q pague bem. Mas pra um tdah muitas vezes isso é dificil. Mesmo com as cartas na mão muitas vezes não sabemos utiliza-las.

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  3. Passei uns 30 anos sem saber o que acontecia comigo. Até o momento em que tive meu filho e aos 5 anos o diagnostico de defict de atenção.
    Ler livros, pesquisar na internet, tem me ajudado a controlar os sintomas sem a medicação, mas tem dias que eu gostaria de contar com o remedio. O meu filho faz uso da ritalina só para a escola.

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  4. Só vivendo, Ana Beatriz, só vivendo.
    Minha vida é tão louca, tão turbulenta, que nem eu acredito como passei dos 50 anos.
    Duro, minha amiga.
    Um abraço
    Alexandre

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  5. Obrigado
    É a nossa vida...
    Um abraço
    Alexandre

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  6. Oi Erica!
    Não abandone o tratamento para que ele não passe pelo que eu passei. Uma vida inteira à beira de dar certo.
    Quase deu certo em alguns momentos; mas aí, eu estraguei tudo!
    Cuide dele, vcs merecem.
    Um abraço
    Alexandre

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  7. PARABÉNS PELO BLOG! PELA CORAGEM DE SE EXPOR E POR SER UM LUTADOR! achei seu blog pesquisando meu "provável" TDAH, entretanto após praticamente ter certeza fui a um neuro e ele disse que eu apenas souu "ansiosa". me identifico com muitos sintomas seus e de outros tdah's, mas parece que eles não foram suficientes para um disgnóstico. quando criança eu era "normal" em memporia e atenção, era uma excelente aluna...eenfim, o fato é que eu sigo estudando para concursos há 3 anos, até agora não obtive êxito...e a cada dia que estudo mais, parece que menos coisa fica "presa" na cabeça...esqueço matérias que acabei de estudar, me sinto triste por ser chamada de avoada, despersa...e para piorar o sentimento de inferioridade meu maior companheiro e incentivador tem uma memória de elefante! o que só aumenta meu sentimento de INCAPACIDADE! tento me situar afinal a criatura lembra de fatos desde o 1 ano de vida dele...então meu "parâmetro" é alto...mas a verdade é q eu não me sinto "normal" e não sei o que fazer. e sigo esquecendo chaves, aulas, celular...coisas ditas e prometidas por mim... ENFIM! vc conhece isso.
    eu não desiti de lutar.
    não desisti de procurar minha aprovação.
    mas às vezes sinto que sou minha pior inimiga. com certeza vc deve ter muitos leitores que também estudam para concurso (e o nível de exigência está cada vez pior) então gostaria que lançasse a questão a eles para saber o que eles fazem para assimilar melhor conteúdo e elevado nível de informações para registrar! obrigada pelo apoio, deus te abençoe!

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    1. Olha, em primeiro lugar você jamais deve se comparar com quem quer que seja. Seu companheiro deve ter lá suas fraquezas. A comparação nos deixa ainda mais inferiorizados, tente evitá-la.
      Dois: passar em concurso é dificílimo! Existe um livro escrito por um Juiz de Direito que afirma que, em média, a pessoa passa na 14 tentativa em concursos públicos. Passar em concurso não ´pe apenas uma questão de estudar, as pessoas aprendem a fazer concursos. Não sei como chama o livro, mas procure que é muito útil.
      Três: não se mate de estudar. Uma coisa que nós TDAHs não temos muita é disciplina, mas é fundamental que vc "APRENDA" a estudar. Observe em qual momento do dia vc rende mais. Eu sou melhor pela manhã.
      Tenho um amigo que se dedicou por 4 meses a fazer concurso da Caixa. Pela manhã frequentava um cursinho e à tarde estuda por mais seis horas com intervalos a cada hora. Já está trabalhando na Caixa.
      Temos o péssimo hábito de nos diminuir ou de impor a nós mesmos objetivos quase inatingíveis.
      Pare e repense sua maneira de estudar.
      E trate-se, a vida é muito melhor qdo nos tratamos.
      Um abraço
      Alexandre

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  8. Oi amigo!
    Uma primeira informação: minha médica toma Venvanse, e eu não tomo por questões financeiras.
    Qualquer medicamento possui efeitos colaterais. Lembre-se: o que diferencia a droga do medicamento é a dosagem. Se vc tomar o remédio como manda o médico não haverá de ter problemas.
    Creio que os possíveis efeitos colaterais do remédio devem ser menores do que os efeitos negativos do TDAH em sua vida.

    Um abraço
    Alexandre

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  9. Bem o Venvanse não está relacionado a medicamento de alto custo do SUS, "bem que poderia" o problema maior neste caso é a politica impostos deste medicamento, o que restringi muito o seu uso, o problema da Ritalina é a dosagem 2 comprimidos por dia e os picos, o Venvanse é somente 1 durante a manhã é o efeito é prolongado e constante.
    Anonimo - por causa do preconceito.

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  10. Rodrigo Nogueira Borghi19 de outubro de 2012 às 10:32

    Caros,

    Uma coisa que muitas vezes proponho aos meus pacientes, é que eles constituam um advogado ou um defensor publico e entrem com uma ação contra o estado, para obter gratuitamente medicações de um custo mais elevado, tendo como base um principio do direito constitucional que aponta a saúde como direito de todos e dever do estado, e muitos conseguem esta medicação regularmente. É uma tentativa válida, tendo em vista que posologia fracionada da ritalina, é um pouquinho chata pro paciente adulto com TDAH, além de outros aspectos técnicos desfavoráveis. Se não me engano existem apontamentos no site da ABDA que mostram precedentes juridicos para estas situações.

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    1. Bem, pelo menos podemos tentar, né!
      Vou conversar com minha médica para ver isso.
      Obrigado Dr. Rodrigo.
      Alexandre

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  11. anonimo,

    Vc já usou o Concerta e o Venvanse? Gostaria de saber se gostou mais do Venvanse para estudar e memória?

    obrigado.

    marce

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  12. Gostaria que alguém comentasse sobre o Venvanse... se ele seria melhor que o concerta em concentração e memória. Já que o Concerta de 54 só me deixa mais zen, menos ansiosa.

    Marce

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  13. Ola Alexandre, parabens pelo blog. Depois de varios anos de muita luta interna, decepcoes, conquistas e derrotas, descobri atraves da internet que eu me encaixava no perfil de uma TDAH. Tenho 42 anos, dois filhos e um deles, hoje adolescente parece uma copia da minha. Passa pelos mesmos sintomas que os meus, a diferenca e que poderei ajudar.

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  14. O impulso ainda pulsa11 de março de 2013 às 20:34

    Olá!

    Depois de mais de um ano sem passar por aqui, resolvo voltar a ler seus excelentes textos e me deparo com essa bela e triste história. Inevitavelmente, fiz uma relação com outro caso, longe de ter um final feliz.

    Num reino próximo, havia uma pessoa. Não era príncipe; não tinha títulos de nobreza. Tratava-se de um reles plebeu; um pobre diabo, de origem humilde, que tinha um sonho: melhorar de vida e mudar seu destino.

    Ele sabia que a trajetória seria árdua. Não se importou. Seguiu em frente, confiante. Insistente, manteve o otimismo, mesmo diante das adversidades. Porém, foi surpreendido por algo maior e sucumbiu a uma assustadora realidade. Por mais que tentasse, seu sonho jamais se realizaria. Para comprovar o que, paradoxalmente, parecia escrito por um destino imutável, decidiu analisar seus passos.

    Mal começou a auto-observação, percebeu que seus projetos começaram, mas não tiveram fim. Se comparados às obras faraônicas espalhadas por aí, seus planos mais se pareciam com aqueles viadutos que ligam nada a lugar algum. Um amontoado de ideias sem valor. Tudo porque, com seu temperamento desmedido e indomável, o plebeu afastou todos aqueles podiam conduzi-lo ao caminho do sucesso.

    Chocado com o cenário sombrio que se abrira após ver ruir sua fantasia, o homem se fechou. Ensimesmou-se. Era agora amargo como fel e de uma acidez imensurável. Isolado, às vezes, pensava que tudo podia ter sido diferente se ele tivesse sido diferente.

    Todos os dias, sempre ao cair da tarde, sua voz era ouvida a quilômetros de distância. Amaldiçoava o seu jeito incontrolável de ser e a incapacidade de mudar o próprio destino. Estranhamente, as lamentações cessaram. Ou o homem morreu ou desistiu de viver.

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  15. Ei Alexandre, gostaria muito que você me respondesse a pergunta que te fiz acima... estou me sentindo o coco do cavalo do bandido. Queria saber também se quando você tomava venvance o remédio te dava um pouco de depressão. Nos primeiros dias eu realmente até senti uma euforiazinha, me senti mais concentrada sim... mais passou agora não estou ligada no 220 nem 110 na verdade sinto que agora me encontro pior pois percebo ao meu redor a realidade e ela é horrível( eu nunca tinha visto, juro, eu nunca tinha percebido.) Percebi que não importa o quanto eu jogue, não ganharei na mega acumulada, não importa o quanto eu queira nunca conseguirei milhares de coisas que para mim estavam ali e em qualquer dia desses esbarraria com elas e elas seriam minhas. Sinto que estou perdendo controle da minha vida, antes não saber que tinha uma doença e viver uma vida de fantasia do que agora me privar de qualquer fantasia possível pois sei que não adianta sonhar... por fim: so queria saber como vc se sentia emocionalmente ao tomar o venvance e agora ao tomar ritalina como vc se sente.

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