O TDAH E A DOR DO PASSADO: POR QUE VIVEMOS SEM OLHAR PARA TRÁS?


Uma estrada infinita vista por um para-brisa limpo, enquanto o espelho retrovisor está quebrado ou vazio, simbolizando o TDAH seguindo adiante.

Nota do Autor (2026): Atualização: Este texto reflete a desconexão emocional que muitos de nós sentimos. Hoje, a neurociência explica isso como uma falha na consolidação da memória episódica, mas na pele, a sensação é exatamente esta: uma vala nebulosa. 


O seu passado dói? O meu não. Duro dizer isso, mas é a verdade.

As pessoas que passaram por minha vida, os lugares em que vivi, as empresas em que trabalhei, ocupam hoje um local nebuloso e distante. Relembro-os sem dor ou emoção especial. Jamais volto a um ex-local de trabalho, a uma ex-casa... Apenas fizeram parte da minha vida. Obviamente, tenho consciência de que contribuíram para quem sou hoje, reconheço o que fizeram por mim, mas emocionalmente...

Não olho para trás, apenas sigo adiante.

A Desconexão com a Nostalgia

Aqueles posts do Facebook e Instagram alusivos ao passado — se você comeu isso ou aquilo, se você usou essa ou aquela roupa — não me emocionam. São apenas curiosidades. Assim como não dói, o passado não serve como aprendizado. Repito "n" vezes o mesmo erro, sigo os mesmos caminhos que me levaram a lugar nenhum sem reconhecê-los; ou, se os reconheço, sou incapaz de me lembrar de suas desastrosas consequências.

Apenas sigo adiante...

Não sei se isso é bom ou ruim; não conheço outra forma de ser para comparar. Essa é a minha forma de viver. Sob o jugo do TDAH. Ou sob a égide do TDAH. Dependendo do ponto de vista.

Mérito ou Sintoma? O Sucesso e o Fracasso

Sou muito elogiado por ter superado as consequências de minha derrocada empresarial aparentemente sem máculas. Vaidosamente agradeço, mas, na verdade, creio que isso seja muito mais uma característica do TDAH do que mérito meu. O passado pouco me atinge, pouco me afeta.

Por consequência, o passado de sucesso empresarial e financeiro está lá, naquela vala comum, nebulosa e distante onde tudo do meu passado se encontra. Isso é bom: sigo a vida sem me abalar com o fracasso ou o declínio financeiro. Mas, por outro lado, creio que se montasse uma nova empresa, cometeria os mesmos erros.

O que não marca para o bem, não marca para o mal. É apenas o passado...

Mágoas que Desvanecem na Névoa

Assim são os sentimentos; minhas mágoas mais profundas, meus ódios eternos, desvanecem com o tempo e acabam naquela vala nebulosa... Em algumas ocasiões, eu me cobro sentir mais do que sinto; noutras, até finjo que sinto mais do que o que efetivamente estou sentindo.

Quando me deparo com pessoas saudosistas, fico pensando se são melhores ou vivem melhor do que eu. Mas agarrar-se ao passado, viver olhando pelo retrovisor, me parece doloroso. E inútil. Aquilo que passou foi superado, foi vivido e não pode mais ser revivido. Não se pode mais reviver os sabores, os odores, os toques, os sons... Até porque você já não será mais a mesma pessoa que viveu aquela primeira experiência.

Relembrar? Talvez, mas sem fidelidade. Quem relembra, lembra através de seus filtros mentais, de suas experiências posteriores e, automaticamente, relembra da forma que melhor lhe parece.

Enquanto eu... Eu apenas sigo adiante...

O mais curioso: o meu sonho era ser professor de História!





FAQ: TDAH e a Relação com o Passado

1. Por que o TDAH tem dificuldade em aprender com os erros do passado?
Isso ocorre devido à "cegueira temporal". O cérebro TDAH tem dificuldade em acessar rapidamente a memória episódica (lembranças de eventos) no momento da decisão presente, o que leva à repetição de padrões antigos.

2. A falta de nostalgia é comum no TDAH?
Sim. Muitos portadores relatam uma desconexão emocional com o passado. Isso pode ser um mecanismo de defesa ou uma consequência da forma como o cérebro processa o tempo, priorizando o "agora" em detrimento do que já passou.

3. O TDAH esquece as mágoas mais rápido?
Para muitos, sim. Como a intensidade emocional de eventos passados diminui rapidamente, as mágoas e ódios tendem a ser "arquivados" em uma zona neutra da memória, o que facilita o perdão ou a simples indiferença.


Leia Também: 

TDAH não é Brincadeira: O Perigo de Romantizar 

Criatividade TDAH: O Lado Obscuro

Dúvidas sobre o transtorno e suas possibilidades de tratamento? Consulte a ABDA:Associação Brasileira do Déficit de Atenção 


Comentários

  1. Muito bom gostei, realmente meu passado também parece algo nebuloso as vezes eu nem acredito que passei por determinadas situações, mas ta legal. ;D

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Isso aí, mas tá legal!
      Valeu!

      Excluir
  2. Muito bom parabéns pelo relato li ele todo, acho muito positivo colocar seus sentimentos para fora.

    ResponderExcluir
  3. Obrigado, Valter Barros!

    Infelizmente não consigo expor essas minhas aflições com todo mundo, inclusive com as pessoas com as quais convivo diariamente, minha mãe e minha esposa. Das vezes que o fiz o resultado não foi o que esperava, TDAH ainda é algo nebuloso e vai além da compreensão da maioria das pessoas, me sinto ilhado. E algumas pessoas que dizem saber do que se trata, sabem por algum famosinho da mídia que alega ter a condição e acabam glamourizando o fato.

    Sinto que tô ilhado, sem ninguém pra conversar a respeito, sem um apoio, sem ter ninguém que padeça do mesmo problema, que se identifique com tudo isso. É duro! Infelizmente por questões financeiras deixei de frequentar a terapia, deixei de tomar Ritalina e no caso do medicamento não sei se foi bom ou ruim. A cada dia que passa fico tentando me animar pra retomar minha vida, fico tentando me motivar a ter alguma ideia que possa me tirar desse buraco. Assim vou perdendo paulatinamente o pouco de amor próprio que ainda me resta. É chato ficar repetindo as mesmas coisas, sentir a mesma sensação de fracasso o tempo todo, isso cansa! Queria muito encontrar pessoas aqui na minha cidade, Hellcife(Maneira carinhosa como chamamos o Recife por aqui, hehehe), pessoas sérias, que pudessem criar um grupo de apoio, pra compartilhar experiências e vivências, enfim, buscar uma saída pra isso tudo.

    Eita, lá vou eu de novo falando muito! kkkkkk

    P.S. O blog é meu refúgio, aqui não me sinto tão só!

    S.L.1974
    Hellcife 2016

    ResponderExcluir
  4. Primeiramente parabéns pela sua busca pelo conhecimento acredito que esse seja mesmo o caminho para resolver qualquer problema na face da terra. Além do conhecimento a conversa também é muito importante ele já falou sobre TDAH isso é um ponto positivo quer dizer que confia em você. Tem um canal muito legal no youtube do Yuri Maia : TDAH Descomplicado ele da vários esclarecimentos aliais tem muito conteúdo sobre no Youtube.

    ResponderExcluir
  5. Vocês ainda têm o tal grupo de Whatsapp? Como faço pra ser incluída sem disponibilizar meu telefone pra internet inteira? Preciso muito me comunicar com pessoas "do meu planetinha".

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Oi Debora, temos sim. Mande um email pra schubertsax@gmail.com com seu número e ddd. Bom ter um novo membro, o grupo anda muito parado; o Valter mesmo quase não se manifesta...

      Excluir
  6. Boa tarde, tenho uma filha de 16 anos com Tdah faz 3 anos que luto a procura de tratamento ela ja fez de tudo ate Ritalina ja tomou , mas no momento atual ela tem um namorado que que a unica coisa que enteresa a ele e o dinheiro que ela ganha no trabalho dela, ela tem dificuldade de ver esso , nao sei o que fazer para ela ver a verdade sera que Ö o tdah que ha empede .obrigadao me oriente .

    ResponderExcluir
  7. Se ele já falou com você sobre o TDAH, você comentar com ele não tem nada demais. Se ele nunca te falou nada...
    TDAH é isso, altos e baixos, alegria e tristeza, calmaria e tormenta... Muitas vezes no mesmo dia. Se vc estiver disposta a conviver com isso, vá em frente.

    ResponderExcluir
  8. Verdade, lembro-me de coisas que até Deus duvida, mas a atenção é péssima.Tenho buscado ser mais condescendente com meu passado, carrego um transtorno que me prejudica. Pronto! E vou me esforçando o máximo que posso. O que conseguir é lucro.
    Abraços
    Alexandre

    ResponderExcluir
  9. Obrigada Tainara e Alexandre. Obrigada a todos que compartilham suas experiências.

    ResponderExcluir
  10. Tranquilo, Alexandre, normal a demora, imagino que andas bastante ocupado com as demandas do TDAH, hehehe.

    Cara, como disse antes, és afortunado por ter chegado nesse estágio de tocar o foda-se pra tudo aquilo que passou, infelizmente ainda me falta muito pra conseguir me desligar do passado e seguir em frente. Não é fácil pra mim não sentir essa culpa, uma culpa por não ter "dado certo", por assim dizer. Eu, como a maioria das pessoas, tô muito preso às opiniões e julgamentos dos outros. Sempre vai chegar alguém com "a melhor das intenções" e te "aconselhar". Críticas eu mesmo já faço a mim mesmo, se bem que eu até que sei receber melhor as críticas hoje em dia, mas tem gente que do alto de sua sapiência, fica tentando dizer o que é melhor ou não pra mim. Detesto esse tipo de coisa, gente que acha que sabe de tudo da vida!

    Me preocupo bastante com os outros e isso acaba misturando uma porção de coisas na minha cabeça, fico me questionando sobre o que será realmente mais importante, ter um emprego estável? Carteira assinada? Ter uma formação? Ser feliz ou ganhar dinheiro? E um monte de outros questionamentos me assaltam a mente, tipo, será que vou conseguir? Será que vou voltar a trabalhar? Quanto tempo vou durar nesse emprego? Será que eu conseguiria ter meu próprio negócio? Enfim, tantas coisas, um turbilhão de pensamentos! Aí o passado vem à tona, e aqueles velhos “SEs”, entende? Ainda penso muito nas pessoas, já fiz coisas demais pra agradar os outros, sofro pressão e comparações por parte de quem deveria compreender e me apoiar. Sou um sujeito que quase não tem mais sonhos hoje em dia, além de contar com minha própria negatividade, tenho que aguentar as críticas negativas dos outros, “não, isso não dá certo, você não tem dinheiro pra investir!”, “Tem que arrumar um emprego de carteira assinada, com plano de saúde!”, “Fulano tá aí com a vida ganha, tem o carrinho dele!” , “E aí, vai sair quando pra botar currículo?”. Isso cansa muito!

    Obrigado mesmo por ter respondido aqui nos comentários, essa troca de figurinhas tem sido muito boa pra mim, tem me ajudado a refletir melhor sobre o que poderei fazer doravante, juntamente com algumas coisas que ando lendo aqui e ali. Esse canal que criaste é uma tremenda válvula de escape. Aqui desabafamos, lemos os relatos e sentimos as angústias de gente como a gente, e ficamos felizes por aqueles que tão conseguindo dar a volta por cima. Quero isso pra mim, quero ter a esperança renovada, não sentir que tô tão sozinho na multidão, encontrar meus pares. Espero um dia encontrar pessoas daqui de Recife que estejam dispostas a se ajudar, quem sabe até criar um grupo de apoio e assim deixarmos o passado e a culpa lá no passado!

    Grande abraço, Alexandre, obrigado pela paciência!

    S.L.1974
    Hellcife 2016


    ResponderExcluir
  11. Olá,
    O que acontece é que as pessoas que desconhecem a doença não imaginam nem de perto o que é conviver com TDAH, seja enquanto portador ou parceiro, familiar. Como comentei anteriormente, sou casada há quase 12 anos com um, e que só diagnostiquei por ser Psicóloga, mas, só ficou claro pra mim o problema pq trabalho na área e por experienciar inúmeras fases dele de irritabilidade, caos, agressividades e outros, por coisas muito pequenas, e falta de interesse e irresponsabilidade por coisas que mereciam significado!
    O relacionamento desgasta, sem dúvida, pois me sinto muito cansada em ver por anos, os mesmos erros se repetirem e ele só consegue perceber que está cometendo o mesmo erro, quando quebra a cara de novo, e pelos mesmos motivos... Estou exausta! Eu, sou profissional da área e com conheço a doença íntegra, por estudar/trabalhar e por conviver, mas mesmo assim é DURO, imagina pra quem está apaixonada e só conhece parcialmente? Vc não tem idéia da diferença que é namorar e estar em casas separadas, e dividir o mesmo teto!

    Namore.. Namore... Namore ... Namore ... Se ele foi sincero em te contar sobre o transtorno, procure conhecer melhor, pois futuramente as complicações da dinâmica familiar acometem os filhos, e muitos não sabem as causas... E falo não tão somente pelo TDAH, mas pelas inúmeras psicopatogias que muitos desconhecem!

    Alexandre, seu blog está de parabéns! Passei o endereço pra que meu marido entre, visualize e entre em contato com vocês... Será muito bom pra ele... Penso eu!
    Abraços,
    Selma.

    ResponderExcluir
  12. Boa tarde Selma,
    Imagino que ser TDAH é muito difícil, daí temos uma clássica moeda de dois lados, de um lado a pessoa com a doença que não consegue corresponder as expectativas do relacionamento e do outro o parceiro que nunca (ou quase nunca) tem suas expectativas correspondidas, visto que a vida a dois exige responsabilidades e ATITUDE de ambas as partes, como levar os filhos na escola, ajudar nas tarefas de casa, pagar contas, atender as demandas do trabalho e por aí vai.
    Vi que você é psicóloga e sabe lidar com as diversas dificuldades, mesmo que não fique exercendo o tempo todo a profissão na vida conjugal.
    Agora, imagine pra quem não é. É desgastante, pesado e parece não ter solução, principalmente quando não sabemos como agir. Some a isso o fato de ter que tomar muito cuidado para não tornar a situação pior ao conjuge TDAH com as nossas queixas, insatisfações, dificuldades e sobrecargas. Muitas vezes eu tenho que ser forte por mim e por ele.
    O familiar do TDAH precisa de acompanhamento e ajuda, pois não precisamos ser mais um para taxar de preguiçoso, irresponsável e outros adjetivos que já passaram a vida inteira ouvindo, ou se sentido, o que pode trazer outras doenças como depressão, fobias, baixa auto estima, etc.
    Assim, é necessário aprender a lidar, obter técnicas para uma melhor convivência e consequentemente um relacionamento saudável, de forma que consigamos ajudar os nossos cônjuges a nos ajudar, e a ter uma vida mais normal, para que eles não se sintam tão sozinhos nesse mundo tão particular.

    ResponderExcluir
  13. Oi vc ainda está nessa mesma situação, gostaria de trocar informações 19988671712

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

PANELA DE PRESSÃO TDAH: A DISFUNÇÃO EXECUTIVA E O CAOS DO TEMPO.

POR QUE PAREI DE TOMAR RITALINA.

DÍVIDAS, CONTAS ATRASADAS. A ROTINA DO TDAH.