TDAH: TEMOS UM DOM?





Dádiva. Presente recebido... de Deus!
Sim, talvez seja...
O dom do reverso. De enxergar a vida às avessas...
Cultivamos o dom de uma criatividade ilimitada, que borbulha em nossa mente de tal maneira incontrolável que atravessamos a vida acreditando que em algum momento seremos reconhecidos...
O dom de nos atermos à beleza do vermelho vivo do sangue que brota e não à dor que sentimos ao nos atirarmos pela enésima de vez de abismos e precipícios...
O dom de caminharmos sobre os escombros de nossas próprias vidas; impávidos; indiferentes; incólumes; e absolutamente prontos para a próxima queda; tão certos estamos de nossos infinitos reerguimentos.
O dom de nossa multiplicidade.  Multiplicidade de empregos; de amores; de recomeços; de objetivos; de fracassos; de tentativas...
O dom da amnésia. Não, não são essas pequenas e risíveis falhas de memória. O dom da amnésia consiste em esquecer as dores passadas; as derrotas passadas; os aprendizados passados e encarar cada dia como algo absolutamente novo e desconhecido...
A alma aventureira também é um dom. Gostamos de aventurarmo-nos. Esportes radicais são para os fracos. Aventuramo-nos com nossa própria vida; nosso presente, nosso futuro. Saltamos da modorra de uma embarcação segura para as delícias de corredeiras incontroláveis. Ah a adrenalina de uma vida inteira em risco...
O dom da visão de raio x. Ah coitados... Onde eles enxergam a dor e a destruição, nosso dom nos mostra o renascimento, o inusitado, o indomável; o inconquistável...
Cultivamos nossos defeitos com a dedicação e a disciplina dos obcecados mas vivemos, na verdade, de nossas superações.
Nosso dom não é a criatividade, mas de sobreviver à ela. De não permitir que ela nos afogue em imagens incontroláveis. Nossa memória ruim é uma dádiva que nos permite esquecer o que sofremos, dando à nossa alma a força dos que desconhecem o perigo e o sofrimento. Nosso dom está em rirmos de nós mesmos, de discutirmos abertamente nossa doença usando imagens de desenhos animados, filmes, músicas e toda a sorte de infantilidades que existem no mundo.
A vida é leve pra quem enxerga às avessas. Não é o objetivo, é o caminho. Não são as escolhas que importam, mas a  possibilidade do desconhecido. Não é a dor de um corpo que cai no solo, mas a delícia do vento nos cabelos durante a queda.
Isso é dom. Dádiva. Presente de Deus.
Aos 'trouxas' resta chorar as dores de uma mente vazia, linear e sem graça...

Comentários

  1. Ola, Alexandre. Então, acompanho seu blog já há algum tempo...e é incrível como me identifico com cada palavra sua...e consigo compreender perfeitamente muitos sentimentos, sensações. A questão é: como posso ter certeza de que tenho Tdah? Não sou uma pessoa tão esquecida, não perco com grande frequência objetos, em compensação...se tiver prestado atenção em meia dúzia de aulas em toda minha vida, é muito. Raramente consigo acompanhar as falas das outras pessoas, especialmente se tiverem contando uma historia longa...sempre me distraio. Impulsiva, sou absolutamente movida a necessidade de sentir prazer...só faço algo se me sentir suficiente “motivada”...seja o que for...mas mínimas coisas! Quantas vezes em véspera de provas e sem ter estudado previamente, fiz outras coisas...nao sei estabelecer prioridades. Tambem já tive “fixação” (hiperfoco?) por algumas coisas. Sempre fui um fracasso na escola...extremamente negligente...ja deixei de fazer muitas coisas importantes/essenciais por pura “falta de vontade”...aquele desinteresse patológico. Não esqueço tanto compromissos...porem adiar...oh, sim...procrastinação é meu segundo nome e grande companheira. Sempre achei que tivesse algo errado comigo. Enfim...tenho Tdah ou só sou uma pessoa muito preguiçosa, burra e irresponsável? Como posso ter plena certeza? Como disse, o que me deixa mais em duvida é o fato de não viver perdendo/esquecendo objetos/compromissos...em contrapartida...! Por favor, me de uma luz!
    (p.s: tenho 21 anos.)

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    1. E não necessariamente o que te desvia é algo que o outro falou, mas alguma coisa externa à ambos/ambas que te desviou. MAs aí já é TDA-H mesmo, porque qualquer coisa desvia e é o tempo todo e é imprevisível o momento. A única coisa quase sempre previsível é que você vai se desviar.

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    2. Agora entendi, =). No problems!

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  2. "Durante algum tempo, entreguei-me completamente ao intenso prazer de imaginar máquinas e inventar novas formas. Foi talvez o estado mental de maior felicidade por que passei na vida. As idéias vinham em um fluxo ininterrupto, e a única dificuldade que eu tinha era de retê-las rapidamente. Para mim, as peças dos aparelhos que concebi eram absolutamente reais e tangíveis em cada pormenor, mesmo nas mínimas marcas e sinais de desgaste. Eu adorava imaginar os motores funcionando constantemente, pois assim apresentavam uma visão fascinante aos olhos da mente."

    Minhas Invenções, Autobiografia de Nikola Tesla, Página 57.

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  3. Grande Alexandre!! Tudo nos conformes?
    Desculpe-me por sumir, mas estou numa correria danada. Até está parecendo que não sou TDAH, kkk. Eu também estou com a missão hercúlea de abrir a empresa antes das 8 da manhã. Em mais ou menos um mês só perdi as chaves uma vez.
    Estou lendo sempre o blog, mas não estou conseguindo comentar.
    Cara, este texto está muito inspirado!.
    Andei me sentindo sem o Dom! Explico: como eu estabilizei bem com os remédios, às vezes sinto falta dos pensamento "Teslianos". Não sou nenhum gênio, mas como muitos aqui inventei muitas coisas que resolviam desde a simples falta de grana até o desarmamento mundial. E isto acontecia em poucos segundos de viagem. Estou achando muito chato pensar em uma coisa de cada vez. Só que a rotina chata está pagando minhas contas. É legal o que eu faço no dia a dia, mas a criatividade selvagem de um TDAH está domesticada. Nunca sei se acho bom ou ruim isso... O tempo vai dizer.
    Fico muito feliz que sua produção de posts está ótima, e que os comentários estão com bastante diversidade, com vários pontos de vista e muito ricos.

    Um forte abraço!

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    1. Rafael P.,

      Irmão, se agarre, com todas as suas forças ao momento atual.

      Estes momentos de paz e produtividade, na vida do portador do TDAH são únicos, e, infelizmente, breves.

      Lute, diariamente, a cada minuto, a cada segundo, para o "DOM" do TDAH não se sobressair.

      Fique atento, vigilante.

      Fico sempre feliz e, melhor ainda, esperançoso, quando vejo estes relatos. Mas ... são sempre precedidos ou sucedidos do tal "DOM" do TDAH, do infinito "DOM" de destruir tudo.

      Seja vigilante irmão. Não se descuide, prolongue este estágio ao máximo.

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  4. Quando uma pessoa "normal", sem TDA-H, está pensando, imaginando, ela só imagina o que é necessário. O TDA-H tenta fazer isso, e também consegue. O que o TDA-H não consegue sempre é "voltar", pois, da imaginação que começou, ela vai para outra, e outra, e mais outra, e se você cronometrar o tempo de volta, nunca será igual, claro. Na primeira poderá ser 30 segundos, na outa 2 minutos, na outra uns 20 minutos, depois 3, depois 15 segundos, não há uma ordem. E essa irregularidade só demonstra o descontrole que a pessoa tem da própria imaginação.
    Os motivos que a levam a essas imaginações nem sempre são prazer, podem ser fobias e/ou dúvidas, e, por falta de solução, ela fica procurando dentro de si as soluções, e isso gera mais e mais imaginações. Esse vício deixa a pessoa "fora da realidade", uma vez que ela está muito mais introspectiva.
    Sua vida é um pouco virtual, talvez um pouco onírica (relativo aos sonhos), mas não totalmente, pois ela sabe diferenciar entre um sonho e a realidade. Quando estamos "dentro" do sonho, tendo ou não TDA-H, não sabemos diferenciar entre real e virtual, já na realidade, tanto o TDA-H quanto a pessoa sem o vício da imaginação conseguem diferenciar, pois não é tão virtual assim.

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  5. "Foi o filósofo grego Sócrates, em um de seus discursos transcritos por Platão, quem primeiramente ligou a arte à loucura. O tempo passou e as biografias de alguns dos maiores gênios da humanidade parecem corroborar com a tese. Depressão, alcoolismo, traumas e transtornos de todas as matizes fizeram com que algumas dessas grandes personalidades mantivessem, ao longo da vida, um comportamento difuso, errático. Agiram de forma muito diferente da apresentada pelas pessoas "normais" de seu país ou geração. Se essas características incomuns lhes valeram oportunidades de se sobressair nas artes, política ou na ciência, também serviram para tornar suas vidas cada vez mais atribuladas ou mesmo para abreviá-las. Conheça casos famosos de transtornos mentais que flertam com a genialidade."

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  6. "A Teoria da Mente é uma teoria na medida em que a mente não é diretamente observável 4 . O pressuposto que outros tem uma mente é chamado de teoria da mente porque cada humano só pode intuir a existência de sua própria mente através de instrospecção, e ninguém tem acesso direto à mente de outra pessoa."
    "Possuir uma teoria da mente permite se possa atribuir pensamentos, desejos e intenções aos outros, predizer ou explicar suas ações e pressupor suas intenções."

    "Teoria da mente parece ser uma habilidade potencial inata em humanos, mas são necessárias experiencias sociais durante muitos anos para ativá-la. Diferentes pessoas podem desenvolver teorias da mente mais ou menos efetivas. Empatia é um conceito relacionado, significando a experiência de reconhecimento e compreensão dos estados mentais, incluindo crenças, desejos e particularmente emoções dos outros, frequentemente caracterizada como a habilidade de 'compreender o ponto de vista do outro'."

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  7. Não, nunca ouvi falar ma "Teoria da Mente". Eu conheço de perto, e no meu couro, outra Teoria, a "Teoria da Merda".

    Por esta teoria, todo portador do TDAH vai fazer uma, duas, três, quatro, ..., merdas na vida. Desde as pequeninas, até aquelas que destroem a sua vida familiar, pessoal e profissional.

    Mas, e aí vem a parte boa, o portador do TDAH vai sempre ter a "criatividade" de se enrolar e enrolar os outros, vai ter sempre "aquela carrinha", aquele "jeitinho" de, merda feita, ficar "tudo bem".

    E não podemos esquecer aquele outro "dom", o de "viajar nos pensamentos", enquanto o mundo pega, igual a Nero, que dizem que, depois de tocar fogo em Roma, ficou passeando tocando harpa.

    Aí vem a calmaria, mas a "Teoria da Merda" entra em cena, de novo, aí vem a impulsividade, a procrastinação, e "merdamos" nossa vida todinha de novo.

    É esta teoria que conheço, há 50 anos.

    Espero, do fundo d'alma, que o Rafael P., e os outros TDAHS mas jovens, mais instruídos, mais medicados, derrubem minha teoria, e, porque não, me ajudem também a derruba-la. Mas, até isto acontecer, é com esta Teoria da Merda que abraço e que me abraça.

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  8. Caro Anônimo, passadas algumas horas depois de ter postado o meu comentário aí de cima, eu me arrependi muito do seu conteúdo, haja vista que ficou, no mínimo, deselegante e grosseiro.

    Peço-lhe, e todos do Blog, sinceras desculpas.

    Só não apaguei porque, por um lado, temos que assumir aquilo que fazemos e, de outro, mostra o estado emocional que me encontro, totalmente fora do meu eixo.

    Em minha defesa, peço-lhe que considere que ando com minha vida totalmente, digamos assim para não ser deselegante de novo, 'bagunçada", pelo TDAH e, quando vejo essa estória do TDAH ser um "dom", eu perdi realmente as estribeiras.




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  9. Acho que uma forma de desvirtualização da nossa forma de ver as coisas é fazer um pequeno exercício, muito simples. Depois contem os resultados:

    Sempre que falam sobre Europa, EUA, China, ou qualquer outro lugar, a gente "vai" para lá na nossa imaginação, certo? Com lembranças em geral, seja pelas que você teve de lá quando foi ou, para quem não foi ou para quem foi, lembranças de coisas relativas a esses locais (TV, internet, livro, etc.)

    Mas e se você, ao invés de procurar o local na sua cabeça, olhasse para a direção onde esse lugar fica? Como se estivessem falando para você sobre ele e o local fosse de fácil acesso, portanto a pessoa estaria apenas apontando para o lugar. É logo ali, entende? Mas sem imaginar, é para olhar para a direção. Se for EUA, olhe para o norte e e tente ver os EUA realmente, sabendo que está logo atrás daquele morro, prédio, casa, etc. Mesma coisa para os demais. O lugar existe, é um fato, olhe para lá, mas sem imaginar, é para olhar para lá realmente, como se você pudesse voar e ir para lá, e então você direcionou seu corpo. Só que, claro, você sabe que não pode voar, portanto não é para imaginar isso. É só para "mentir" para si mesmo. O foco está no exercício.

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    1. Entendi não. kkkkkkkk

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    2. Resumo: Pararmos de criar imagens de coisas que existem. Pararmos de trata-las como coisas virtuais, mesmo no fundo sabemos que existem, e trata-las como coisas que realmente existem, já que elas existem.

      Talvez você não tenha entendido porque não tem isso. Pode ser que outros tenham.

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  10. Bem amigo anônimo, somos parecidíssimos. Há 53 anos tento ter uma vida estável, tranquila e não consigo. Quando percebo estou no meio de um redemoinho que muda minha vida completamente. Fico exausto e juro nunca mais repetir. kkkkk Ledo engano...
    Abraços
    Alexandre
    PS.: Obrigado pela inspiração do Post.

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  11. Sim, nosso tempo mental é muito diferente do tempo real. Eu sempre acho que está tudo muiiiito longe. Quando percebo já chegou.
    Abraços
    Alexandre

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  12. Vou ver.
    O Rodrigo é fera, é psiquiatra e entende profundamente de TDAH. Imaginei que fosse bom mesmo.
    Abração, amigo.
    Alexandre

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  13. Sim, o problema é que nossa criatividade é descontrolada. Alguém disse aí em cima que um pensamento emenda no outro, que deságua num terceiro...
    O que precisamos é aprender a domar isso e canalizar para o lado prático, que em geral não temos.
    Abração
    Alexandre

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  14. Sim anônimo, lendo seu texto vi minha vida. Você se trata? Toma algum tipo de remédio ou faz algum tipo de terapia? A questão da Bissexualidade é ruim só no ponto de que é mais uma barra pra você enfrentar, mais um 'desvio de conduta' para uma família ortodoxa e hipócrita.
    Mas eu sou assim também, aos 53 anos ainda não me encaixei em nada com perfeição. Sempre falta algo, ou sobra alguma coisa.
    Seja bem vindo, desabafe, xingue, brigue, estamos todos no mesmo barco, lutando contra o mesmo inimigo. Sua força é mais uma ajuda para vencê-lo.
    Abração
    Alexandre

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  15. Precisamos nos fincar na realidade. Uma ajuda é perceber os sinais, calcularmos e memorizarmos os tempos que cada coisa leva para ser feita, independente do TDA-H.

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  16. Alexandre, um meio termo que pode resumir tudo não seria tratarmos como um dom que não está sendo domado? A imaginação está aí, e é extremamente fértil, e justamente por isso cria-nos uma ilusão, ficamos com os pés nas nuvens, e não na realidade.

    Parece que não somos realistas. ocorre que ser realista é uma coisa, mas ESTAR COM OS PÉS NA REALIDADE É OUTRA! Completamente diferente.

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  17. Um hipotético ex-TDA-H não seria uma pessoa que dominou sua imaginação dizendo "Não!" para ela nas horas quem que deveria dizer "Não!" e sabendo que em outras determinadas horas você poderia dizer "Sim!" e, portanto, disse "Sim!"?!

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  18. Primeiro: Não, não, não. Mil vezes não. O TDAH não é um dom. Algo que limita, incapacita, ou mesmo destrói a vida de 3 a 7% da população mundial não pode ser chamado de ¨DOM¨.

    Segundo: Os alcoólatras, mesmo quando conseguem ficar anos sem beber, não aceitam a designação de "ex-alcoólotras¨, de ¨curado¨, pois eles sabem que se ¨bobear, se tomar a ¨primeira dose¨, já era, volta a beber tudo de novo.

    TDAH não tem cura, tem controle. A busca tem que se por mecanismos que nos façam ter mais controle sobre nós mesmos. Esta é a minha busca diária e infrutífera no mais das vezes, mas continuo nela.

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  19. Caro Anônimo (cadê seu pseudônimo?), você está certo nos dois sentidos: sou muito curioso e não consigo controlar meus pensamentos.

    Teve alguém aqui no blog que fez uma metáfora, dizendo que a cabeça dele às vezes (muitas vezes) parecia uma máquina de lavar com os trilhões de pensamentos rodando feito doido lá dentro.

    É por aí, o problema é que ninguém me ensina aonde fica o botão de desligar. rsrsr

    Grande abraço

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  20. Logo antes de dormir, tenta fechar os olhos e olhar para o fundo escuro e qualquer coisa que venha à mente você diz "Não!", e passa a olhar para o fundo preto novamente. Veja se consegue isso. Conseguindo ,tente praticar mais vezes.

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  21. Sua mente não vai parar, vai ter um barulho no fundo, mas o importante é não projetar nada. Se começar a projetar aí já era, só na próxima trégua, rs.

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  22. Cara,

    Você me lenhou.

    À propósito deste "NÃO" que você quer que eu dê nos pensamentos quando eles surgirem, eu aproveito para lhe contar uma miséria da minha vida, mas que deve ser engraçada para os outros. Você quer dá risadas da miséria dos outros (da minha)? querendo ou não (e eu sei que você quer), eu vou contar, pois estou de ótimo humor agora:

    Por causa deste nobre e tão decantado "dom" do TDAH, a minha cabeça fica assim, feito uma máquina de lavar com os tais milhões de pensamento o dia todo. Isto já foi dito aí em cima.

    Imagine, então, quando eu faço uma estupidez? e as venho fazendo com freqüência ao longo da vida, claro, pois tenho o "dom"do TDAH.

    Aí é que a coisa ferve. A máquina de lavar se entope com zilhões de pensamentos e passa a girar em velocidade de "dobra espacial".

    Por conta disto, desenvolvi uma comorbidade, que depois descobri que era latente mas que o "dom" do TDAH fez brotar, que é a tal da "SIMDROME DE TOURETTE", (nome bonitinho, né? é até chique, em francês).

    Pois bem, esta tal da ST é o popular "Tic", aquele da música "isto me dá, ... tic, tic, nervoso, ... tic, tic, nervoso". Na forma mais amena, é o piscar constante dos olhos, um gesto involuntário qualquer que se faz de forma repetitiva.

    Mas você acha que o "dom" do TDAH ia me dar um "Tic, Tic,” qualquer? nããããão. Ele, o lindo, maravilhoso, criativo, cheirosos, e sei lá mais o que do “dom” do TDAH me deu a ST na forma mais extremada, me deu na forma da (se segura que lá vem uma palavra medonha) "COPROLALIA", que é "a tendência involuntária de proferir palavras obscenas".

    Bem explicando, eu, todo no paletó, gravata, bem vestido, arrumado, perfumado, sem quê nem pra quê, disparava a gritar, isto mesmo, mano véio, gritar: "Pi..", "C'", "buc...", "Cara...", e por aí vai. Era amedrontador. Eu às vezes berrava a todos pulmões.

    Pois esforço pessoal hercúleo, eu conseguia controlar e só fazia isto no carro, ou em recintos que eu “achava” que não tinha ninguém. Às vezes, eu estava no engarrafamento e .. tome-lhe “PI...”; o pessoal nos outros carros não entendia nada, ou melhor, entendia que tinha um maluco no volante.

    Durou anos, atualmente eu consegui controlar a fase da "COPROLALIA" (o palavra medonha), mas continuo proferindo palavras involuntariamente, tipo: "40 milhões de dólares", "governador", "João", etc., palavras que a mim racionalmente não me dizem nada.

    Bem, a história tem outros desdobramentos, mas lhe conto, e aos irmãos aqui do blog, para lhe dizer que hoje eu tenho a consciência de que esta verbalização involuntária vem, justamente, para “travar” algum pensamento que surge do nada e que me causa grande aflição ou dor. É mais ou menos assim: A mente começa a pensar naquela procrastinação que está prejudicando o cliente tal, eu grito "JOÃO"; começa a pensar naquele compromisso que não vou, e não vou ligar para desmarcar, e, por causa desta bobagem da falta de uma simples ligação vai dar merda .. "GORVERNADOR, ÔH GORVENADOR". ....

    Daí que, quando você mandou eu dizer "NÃO" para frear meus pensamentos, pensei: “que droga. Agora, além de “JOÃO”, “GOVERNADOR”, etc., vou começar também a gritar “NÃO”. rsrsrsrs

    Brincando, eu falo sério. Falo sério, brincando. Tudo na esperança de me ajudar e ajudar alguém.

    Grande Abraço.

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  23. Eu ri na parte do "maluco" gritando no carro. Não tem como você gritar isso na mente só? Sem realmente verbalizar, de fato, concretamente, na realidade real não virtual sem ilusões oníricas onde coisas reais realmente são reais?!

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  24. Se desse para controlar as verbalizações, assim ..., facilmente não era uma Síndrome de Tourette. Se desse para controlar, não seria verbalizações "involuntárias".

    Se desse para controlar os pensamentos, não seria TDAH.

    Enfim, vida dura, dura vida, ... mas vida que segue, segue a vida.

    Grande abraço irmão. Arranja logo um pseudônimo, pois nunca sei se estou falando com a mesma pessoa.

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  25. Walter, sugiro que você desconfie desse termo involuntário. Temos muitas cosias involuntárias mesmo, mas eu acho realmente que o aprendizado de fora para dentro pode ser bastante profundo, não sei...

    Talvez o que é involuntário na nossa mente seja a própria capacidade dela trabalhar sozinha realmente, e depois nos enviar possíveis respostas para as coisas, mas ela só pode trabalhar com aquilo que a gente pensa, vê, vivencia. Você conseguiu trocar as palavras que ela grita, mas antes de ela gritar, você precisou deixa-la gritar. Se deixou grita-la, você consegue responder se foi em um momento em que você estava acordado? Ou foi em meio à mais um daqueles mergulhos da nossa mente, quando só ela trabalha e a gente fica se deleitando?

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  26. Booooa Ana.

    Bem vinda ao clube. Já somos dois.

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  27. A descoberta deste blog do Alexandre foi um bálsamo maravilhoso para a minha vida. Descobrir iguais, descobrir pessoas que pensavam e agiam como eu, pessoas que, sem nunca me encontrarem pessoalmente tinham os mesmos pensamentos que eu, me tirei a sensação de ser um “ET”, um escroque, um desajustado socialmente, um irresponsável, etc.

    Passei a entender que eu fazia e faço sim irresponsabilidades; fazia e faço sim procrastinações que me prejudicam muito e a terceiros e, nesta medida, posso ser chamado, sim, de irresponsável; assumo estas responsabilidades penosamente, mas assumo.

    Mas passei a entender, e aí está a minha alegria com este blog, que faço isto, não por ser um deficiente de caráter, mas por ser portador de uma doença mental, o TDAH, e, como toda doença, mesmo sem cura, tem tratamento para seu controle.

    E assim vou levando a vida ... a cada dia tentando me entender melhor, a cada dia tentando entender a reação das pessoa ao meu redor, enfim ... vivendo um dia de cada vez, sempre na luta para que no dia de hoje eu consiga controlar melhor o meu TDAH.

    Mas sobre conversarmos melhor, eu queria lhe dizer que, logo apos as trocas de experiências aqui neste blog, eu entendi como devem ser fantásticas as reuniões do AA (alcoólicos Anônimos). Poder ouvir de viva voz os relatos, as experiências, os sucessos e as derrotas de nossos iguais, e, na mesma medida, poder relatar as nossas, deve ser LIBERTADOR.

    Eu vi que a ABDA – Associação Brasileira de Déficit de Atenção estava promovendo encontros entre os portadores de TDAH, mas, infelizmente, não programou nenhuma para a minha cidade. Eu gostaria muitíssimo de participar.

    Enfim, eu gostaria muito de conversar com você e com qualquer outro aqui do blog, só não sei como lhe passar um e-mail para isto, pois não quero tornar meu e-mail público.

    Enfim, encerro dizendo a você que nas piores horas eu me valia muito da seguinte frase: “Eu me vergo, mas não quebro”, aí me levantava e ia trabalhar, mesmo com o mundo me cobrindo de porrada.

    Hoje, mas iluminado por este blog, eu troquei aquele bordão pela citação do Alexandre do Guimarães Rosa: “Todo caminho da gente é resvaloso. Mas, também, cair não prejudica demais - a gente levanta, a gente sobe, a gente volta”.

    É isto aí Ana, não é fácil, mas é a nossa vida com esta praga do TDAH.

    Grande abraço.

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  28. PQP. Que ódio! Escrevi uma resposta enorme, mó legal, contando até um segredo de TDAH e não percebi que não estava logado. Droga!
    Depois refaço!
    GRRRRRRRRRRRRRRRRRR

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  29. Não vai refazer não, Alexandre.

    A gente escreve super inspirado e focado, quando a zorra apaga, a inspiração vai embora, e depois vem outras muitas coisas ... kkkkk

    Uma pena, perder as palavras de meu "guru", .... é realmente uma pena.

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  30. É verdade, Walter... depois do blog, quando estou afundando, lembro do "a gente levanta, a gente sobe, a gente volta". E concordo também que o diagnóstico, apesar de muito pesado, é libertador. Sempre fui acompanhada pela culpa, me sentia uma fraude, mas agora sei que tenho um problema enorme e que tenho que lutar diariamente com ele. Aprender, lidar, lutar e às vezes, lastimar. Eu herdei este problema do meu pai. Nunca entendi muito bem o jeito dele, mas sempre o amei e admirei demais. Agora, sabendo do que se trata, veio a compreensão do jeito dele, não o julgo. Sempre me lembro de você, nestas situações, de um modo inverso. Você compreende seu filho (e se preocupa com ele) e eu hoje entendo meu pai, muito mais do que antes.
    Alexandre, sabemos o quão importante é o reforço positivo para nós portadores. Teu blog é a prova disto e orgulhe-se ainda mais dele. Você nos ajuda diariamente e merece todo agradecimento por isso! Abraços a todos.

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  31. Que ódio!!!! Pior que isso já me aconteceu muitas vezes e em várias situações. Escrevo e quando vou postar, perco tudo. O que passei a fazer é, sempre que termino de escrever, seleciono o texto e dou um ctrl+c, assim fica salvo para eventuais "esquecimentos" =)

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  32. Escrevam no Notepad e depois repassem para cá.

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  33. Só pra te contrariar, Walter, aqui vai: eu uso uma estratégia para diminuir o fervilhar da minha mente; pego um tema da semana, um bem cabeludo (nacional ou internacional isso é indiferente), que esteja em voga e fico imaginando como eu solucionaria aquele problema. Vocês não imaginam como a humanidade melhora com as minhas soluções. kkkkk
    Parece meio idiota ( e é) mas assim consigo reduzir a tal máquina de lavar roupa de pensamentos. Nos dias em que a máquina está ligada no turbo - e eu estou sozinho, claro - até falo sobre o tema comigo mesmo. Pra dormir é ótimo. Claro que as vezes durmo antes de salvar a humanidade, mas nem tudo é perfeito. kkkkkkk
    Era isso Walter e Ana M, tento dar um sentido - ainda que lúdico - a exaustiva máquina de lavar mental. Não sei se ajudará alguém, mas pra mim acalma a mente.
    Abrações, amigos
    Alexandre

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  34. TDAH um dom!? Nunca!!! Se fosse um dom não precisaria de tratamento. Não vejo consequências tais como fracassos, erros reiterados, baixa auto-estima, desorganização, oscilações de humor resultantes de algo que seja um dom.

    Walter, é triste a comparação com o alcoolismo, mas pura verdade. Rs rs Vigiai e tratai, senão o TDAH volta e domina nossa vida. Desatenção, impulsividade, hiperatividade e todos os deficits daí decorrentes produzem estragos, muitos irreparáveis.

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  35. kkkkkkkkkkkkkkkk
    Obrigado, mas só se for o rei da procrastinação, do esquecimento, da desatenção, da...
    Me sinto como mito de Sísifo, aquele que sobe o morro empurrando uma pedra e quando chega lá em cima a pedra cai de novo.
    O que não posso é desistir. Nenhum de nós.
    Abraços e obrigado!
    Alexandre

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  36. Ana, desculpe não tê-la respondido antes, mas parei de receber as notificações de comentários por email e acabei me perdendo...
    Em primeiro lugar, boa sorte! Muita força pra você nesse novo caminho. Você vai perceber que não serão todas as suas características negativas que vão ser 'consertadas' com o remédio, mas isso não importa, sua vida inteira vai melhorar.
    Não foque naquilo que não mudou, concentre-se nas melhorias; a Ritalina melhora muito a atenção, a preguiça, a memória... O resto é com você!
    Preste atenção ao seu comportamento e reflita: estou fazendo isso por que é assim que quero viver ou é o TDAH agindo por mim? Corrija o rumo daquilo que você achar que e a doença agindo por você. Leia tudo o que achar sobre a doença, conheça-se, preste atenção em você.
    Outra coisa, não saia por aí falando que tem TDAH, existe um enorme preconceito com doenças mentais e você será muito criticada por isso.Ninguém no meu trabalho sabe que sou TDAH.
    Bem vinda ao nosso mundo e boa sorte!
    Abraços
    Alexandre

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  37. Como a insônia, o medo do novo trava tanta quem tem TDAH, sempre fui criticada por ser lesada, por esquecer do importante rapido e do quw não presta lembrar, sempre fui uma pessoa curiosa, inquieta..... e tantas coisas que eu li nessa uma hora lendo seu blog! Como me sinto mais leve em me identificar cim suas palavras..... incrível como relatos sao idênticos de carios depoimentos e de pessoas de toda idade. Amanha será meu primeiro dia de ritalina LA 20. E confesso que depois de sair do cobsultorio do neurologista, levei quase um mes pra comprar o medicamento, com medo, na duvida... era pra ter feito o início hj e não fiz com medo. Agora sei que não devo ter medo e devo realmente tomar na manhã seguinte. Aliviada, esperançosa é o que me define.

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    1. Força, amiga! Pelo menos experimente o remédio, dê uma chance a vc mesma e a sua vida. Com certeza vai melhorar. Vc deve apresentar alguns efeitos colaterais tipo, boca seca, falta de apetite, um pouco de dor de cabeça... Em geral desaparecem completamente em duas semanas. mas todos eles, todos mesmo, são muito mais suaves do que os estragos que o TDAH faz na vida da gente.
      Abração e boa sorte
      Alexandre

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