O TDAH E A FAMÍLIA






O post anterior suscitou um debate interessante, um adolescente que se descobriu TDAH recentemente não sabe como contar à família. Como bom TDAH ele procrastina esse momento ao máximo, imaginando toda a sua revolta caso a família não concorde em leva-lo ao médico e trata-lo.Com o apoio do Walter Nascimento e do Léo Ribeiro, nosso jovem TDAH ,que se auto denomina Sail, está criando forças para contar aos pais que todos os seus testes (feitos na internet) deram positivo.Vou tentar dar minha contribuição.
Assim como quase todo adulto, descobri meu TDAH por acaso. Lendo uma revista Veja antiga deparei-me com uma entrevista da Dra. Ana Beatriz; e ela falava de mim, da minha vida, do meu comportamento, da minha alma. Eu estava na sala de espera de um advogado e sequer me lembro do que tratei com ele. Saí dali a mil por hora e mergulhei na internet, no livro 'Mentes Inquietas" e, em 24 horas estava no consultório da Dra Valéria Modesto, a quem devo, inclusive, a existência desse blog.
A família merece um capítulo à parte.
Ao contrário de outras doenças, o TDAH é convivível e bastante camuflado. Podemos ser taxados de 'avoados', 'irresponsáveis', 'preguiçosos', 'elétricos', 'mal educados', 'cretinos'... Enfim, podemos ser um monte de outros adjetivos, mas não 'doentes mentais'. Doente mental é uma pecha muito forte, uma tatuagem difícil de apagar. E pasmem, nossas famílias preferem os cretinos, preguiçosos, irresponsáveis, do que ter em seu seio um 'doente mental'.
Em geral, a primeira reação é a negação ou descrença. "Imagina, você é tão inteligente"; " não fala isso, nunca que você tem uma doença mental"; 'isso é invenção de médico pra ganhar dinheiro"...
Se você não chutar o balde, brigar e xingar, você pode ter a chance de convencê-los, de provar a eles que sua doença existe e você é um dos portadores. Todo aquele comportamento estranho, meio fora do eixo, tem uma razão. Nesse momento a emoção toma conta; choro, abraços e juras de apoio eterno; mas poucas famílias dão o passo seguinte. Poucas famílias dão o apoio necessário. Você receberá um crédito para provar que os remédios o mudarão por completo, mas não mudarão. Ao fim desse crédito, você continua igual - ou quase igual - e você fica devedor.
É você com você mesmo. Até por que é pesado, sacrificante; e muitas vezes frustrante. Ao contar para sua família que todos (ou a maioria) dos seus maus comportamentos tem origem biológica, seus parentes imaginam que com uma ou duas caixas de remédio você mudará da água para o vinho. Só que não! São pequeninos passos, pequenos e titubeantes; com retrocessos, quedas e repetições. A família não percebe as mudanças, às vezes, nem você percebe. E você e sua doença caem no descrédito.
Para não provocar uma cisão familiar o passo seguinte é o esquecimento; ninguém toca no assunto; ninguém te pergunta nada; e se você falar sobre, fazem aquela cara de paisagem e respondem com evasivas e muxoxos.
Prepare-se para contar à sua família; não brigue, não xingue, arme-se com seus testes, com sua paciência (que em geral é muito pequena), e até esse post, se você gostou e acha que pode ser útil. Mas prepare-se, nenhuma família está preparada para ouvir o que você vai contar. Ninguém quer ouvir, já se acostumaram com seu querido 'irresponsável' e ninguém sabe o que vai surgir depois do tratamento.
Mas, coragem; se é ruim com eles, sem eles é quase impossível.
Força; ao infinito e além!

Comentários

  1. Brilhante, sempre.
    Teus textos me ajudam muito Alexandre e a sua sensibilidade me comove. Quem dera se todo TDAH tivesse a sua percepção do transtorno.

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  2. Boa noite Alexandre!

    O que falar sobre seu blog?? Sobre seus textos?? Simplesmente sem palavras...não sei se você faz ideia de quanto tem ajudado ou até mesmo mudando a vida de muitas pessoas, pelo menos a minha eu posso afirmar que mudou muito!!
    A cada leitura dos seus textos me sinto mais forte, fico com mais combustível para alimentar a luta diária de uma pessoa com TDAH....sei que estou fugindo do tema do post sobre família, mas procastinei muito para sentar e escrever para você e hoje acabei conseguindo e estou fazendo neste post mesmo.
    Muito obrigada por cada palavra, tenha certeza que salvou minha vida...pois encontrei seu blog num momento de desespero e já cansada de tudo, a ponto de entregar o jogo e não lutar mais, porem ao ler seus textos percebi que eu não era um ete e nem um caso sem solução. Hoje passei a me aceitar...aceitar que tenho uma doença e não era apenas preguiça, falta de comprometimento ou vergonha na cara...e ao aceitar que os problemas ocorrem devido uma doença passei a buscar métodos para encarar a doença de frente e suas consequências e não me esconder atrás dela, precisando de um tratamento além das medicações. Comparo o nosso tratamento com o alcoólicos anônimos...pois não posso dar aquele primeiro "gole"....talvez uma pessoa sem TDAH possa dormir mais 5 minutos depois que o despertador tocar, mas se tratando de um TDAH isso seria convertido para mais 5 horas na cama...um dia sem arrumar minha cama acabo chegando ao ponto de não conseguir entrar no quarto, então preciso seguir uma rotina rígida para não jogar tudo pelo ralo....uma luta diária!
    E tudo isso está sendo construído através das leituras dos seus textos.

    Um grande abraço e que Deus continue iluminando nossa caminhada!

    Fernanda Aguiar

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  3. Walter,
    Acho que ele deve contar no Natal. Assim a família estará mais sensível, kkkkkk... Desculpa a brincadeira, Sail! rs

    Alexandre, meu nome é Luana e acompanho seu blog desde o dia em que a minha ficha caiu, ou seja, lá para janeiro ou fevereiro deste ano.
    No começo, somente meu marido e minha irmã sabiam e me apoiaram muito. Até hoje.
    Depois, com a orientação da minha terapeuta, contei a meu pai e, na mesma conversa, revelei a ele que ele era um grande candidato (comprovado posteriormente). Agora o desafio é contar para minha mãe. Ela é muito amorosa, mas ainda com algum preconceito em relação à saúde mental. Ela tem TOC e nem sonha com isso. Eu tenho TDAH e TOC - metade pai, metade mãe, rsrsrs... O TOC já está bem reduzido e, em breve, começo com a Ritalina. Um dos grandes argumentos que tenho com meu pai (para que ele acredite na mudança da minha mãe) é a minha evolução ao reduzir os rituais do TOC depois da terapia e dos medicamentos. Isso leva esperança e esclarece, visto que estamos num país ainda mega preconceituoso e mal informado.

    Sail, que Deus te abençoe! Clame a Ele para que a ansiedade seja reduzida.

    Um abraço!

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    Respostas
    1. Tadinho do Sail! Deixem que ele conte no momento em que se sentir seguro e confortável para fazê-lo.
      Mas acho o natal uma boa época. kkkk
      Abraços
      Alexandre

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  4. (reescrevi pois esqueci de seguir o blog)

    Walter,
    Acho que ele deve contar no Natal. Assim a família estará mais sensível, kkkkkk... Desculpa a brincadeira, Sail! rs

    Alexandre, acompanho seu blog desde o dia em que a minha ficha caiu, ou seja, lá para janeiro ou fevereiro deste ano.
    No começo, somente meu marido e minha irmã sabiam e me apoiaram muito. Até hoje.
    Depois, com a orientação da minha terapeuta, contei a meu pai e, na mesma conversa, revelei a ele que ele era um grande candidato (comprovado posteriormente). Agora o desafio é contar para minha mãe. Ela é muito amorosa, mas ainda com algum preconceito em relação à saúde mental. Ela tem TOC e nem sonha com isso. Eu tenho TDAH e TOC - metade pai, metade mãe, rsrsrs... O TOC já está bem reduzido e, em breve, começo com a Ritalina. Um dos grandes argumentos que tenho com meu pai (para que ele acredite na mudança da minha mãe) é a minha evolução ao reduzir os rituais do TOC depois da terapia e dos medicamentos. Isso leva esperança e esclarece, visto que estamos num país ainda mega preconceituoso e mal informado.

    Sail, que Deus te abençoe! Clame a Ele para que a ansiedade seja reduzida.

    Um abraço!

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  5. Carolina,

    Antes que o Alexandre responda, deixa eu dar logo meu testemunho.

    Mas, calma, fique tranquila, pois vou falar a sério, já que acho que a minha fase de "molecagem" neste blog já passou, (fiquei até envergonhado de ler meus comentários acima).

    Meu filho de 21 anos, que mora sozinho em outra cidade fazendo faculdade, faz exatamente isto, enche o apartamento de "postites"., e ajuda no contexto com outras estratégias., por isto acho válido sim,

    No caso dele, os colegas dele não sabem que ele tem TDAH, e vivem arrancando os postites, trocando de lugar, ou escrevendo horários e locais diferentes (É o preço que se paga pelo TDAH, todo mundo achar que pode esculhambar a gente).

    No meu caso, nunca usei, nem agenda, nem nada. Sou felizardo, minha esposa e minha secretária é que me lembram de tudo, a cada minuto.

    Sucesso.

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  6. P.S.: ASSINADO: Walter Nascimento, TDAH que estava tão feliz com a sua vida, mas tão feliz, que andou se comportando neste blog como um "bêbado inconveniente", mas que agora está em profunda dor, pois seu filho muito amado e muito TDAH "caiu".

    Alexandre coloca uma uma frase do Guimarães Rosa aí em cima que serve de norte para mim: "Todo caminho da gente é resvaloso. Mas,também, cair não prejudica demais - a gente levanta, a gente sobe, a gente volta. "

    Saber que toda a nossa vida, nossa todinha vida, será assim é muito duro. Mas a gente se prepara, se medica, enfim, a gente levanta, a gente sobe, a gente volta, trazendo todas as marcas e cicatrizes da queda, mas a gente volta.

    Bem, saber que a queda dele agora é apenas mais uma da vida dele, saber que toda a vida do meu amado filho, todinha, será assim, saber que muito pouco ainda posso fazer por ele além do que fiz e faço, saber que, praticamente, tenho é que ficar apenas sofrendo e "catando os cacos", saber que meu papel, enquanto vivo for é o de apenas ficar estendendo a mão para rirá-lo das quedas, é o de ter pânico de morrer, não pelos motivos que todos têm, mas, única e exclusivamente, por ter terror de imaginar seu filho sozinho, incompreendido na vida ... não gueto mais escrever,

    desculpem-me.

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  7. Obrigado pelas palavras Walter!
    Apesar de me sentir sozinho, eu não desisti de mim, e mesmo que eu não tenha apoio, eu vou continuar. Procurarei ler os posts anteriores sobre o Sail, e sobre enfrentar meus pais, eu vou esperar o momento certo, preciso falar com um profissional antes, se não estarei de mãos vazias e novamente vão achar que é só uma desculpa minha.

    Mais uma vez, obrigado, foi muito bom encontrar esse blog, e saber que eu faço parte de alguma coisa, e que de certa forma, não estou sozinho.

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  8. Alexandre, eu gostaria que você comentasse algo sobre a Acídia, baseado no que o Padre Paulo Ricardo fala no site dele, na aba cursos->Doenças espirituais. Dê uma olhada lá, a acídia tem muito a ver com a preguiça, mas ela é muito mais crônica, apesar de ter cura, e tem muito a ver com o TDA-H. Talvez não sejam as mesmas coisas, mas por serem semelhantes, têm ambas remédios parecidos, por causa dos efeitos desejados, como fazer terapia ocupacional, prestando atenção Na ansiedade e na simplicidade do que esta´sendo feito.

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  9. Oi Ildete, respondi sua pergunta no outro post.
    Abraços
    Alexandre

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  10. Com certeza! Assumir uma doença mental não é fácil, ainda mais que o TDAH é meio mal visto. Mas, no caso do Sail , sem a família ele não tem como se tratar. Ele tem que contar.
    Mas que não é fácil, não é mesmo.
    Abraço
    Alexandre

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  11. kkkkkkkk
    Você é fundamental nesse blog.Você tem consciência de que nos meus piores momentos é você que mantém os comentários vivos? Você é meu 'sócio' no blog. E eu só posso lhe agradecer por isso.
    Quanto ao Sail, acho que ele adia até o Natal.
    KKKK
    Abração, meu amigo, meu 'irmão' de TDAH e blog;
    Alexandre

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  12. Carolina, Carolina, amei o termo ' metodologia de organização visual'. Que lindo! kkkkk Perdoe-me pela brincadeira, mas realmente achei pomposo.
    Não me lembro se escrevi um post sobre isso especificamente. Mas é fundamental. Eu uso mais o celular do que qualquer outro método. Está ao meu lado 24 hs por dia (literalmente) e tem o dom de chatear, pois toca campainha, vibra, e não me permite esquecer.Outra coisa que adotei, especialmente no trabalho, é deixar o que tenho que fazer à vista. Não guardo em gavetas ou pastas, do contrário caem no limbo. Tenho aprendido ( esse será o assunto do meu próximo post) a combater a preguiça e a procrastinação. Procuro fazer tudo na hora, sem adiar.
    Obrigado por suas palavras, são um incentivo muito forte.
    Abraços
    Alexandre

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  13. Em nossos filhos é sempre mais complicado e doloroso.
    Força, amigo!
    Alexandre

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  14. Olá,

    Comecei a namorar uma menina de 25 anos, muito cativante, e o início do relacionamento foi maravilhoso. Em 15 dias, a primeira crise e os dizeres de que não estava pronta pra se relacionar. Dei seu espaço e após 3 dias me procurou, dizendo que a vida longe de mim estava pior do que comigo próximo. O início de namoro seguiu, por mais 15 dias, mas nesse ponto eu sentia um aperto no peito (sempre suspeitando que uma nova notícia do tipo viria a qualquer momento). A tal notícia não veio, mas o novo isolamento sim. E esse já dura 1 mês com raras trocas de mensagens via whatsapp. Mas, como ela já havia me dito ser portadora do TDAH, busquei auxílio com um psiquiatra e terapeuta. Para entender o que se passa e para me cuidar também, já que existe a possibilidade desse relacionamento desenrolar. No final das contas, pode ter sido ao menos um convite para que eu também me conhecesse melhor na terapia e evoluísse como pessoa. Nada é em vão. Se você fizer dos acasos, oportunidades para a mudança. Pra melhor! Eu sofro as vezes, mas me apego a oportunidade de poder desenvolver o verdadeiro amor incondicional, por ela e por mim. Trabalhar minha carência. Minha auto-estima. E minha humildade. Perante a vida. Perante Deus.

    Quero aproveitar para compartilhar com vocês, portadores ou não do TDAH, que existe uma técnica nova no Brasil, porém muito poderosa, chamada MICROFISIOTERAPIA. Ela tem trazido resultados extraordinários para diversas doenças, por trabalhar justamente com a nossa BIOLOGIA. Eliminando traumas, crenças e paradigmas que se desenrolam em doenças.

    Eu frequento um microfisioterapeuta inclusive, por questões emocionais. E minha vida deslanchou depois que passei por ele. Como se houvesse sido desbloqueadas diversas coisas no meu subconsciente, fazendo com que minha vida fluísse em sincronia com o universo. Este que frequento, especialmente, passou a adotar afirmações positivas em conjunto a suas sessões.

    A menina que conheci? Recomendei e ela foi uma vez, com o retorno marcado para estes dias. Espero que ela continue frequentando e possa se curar ou ao menos amenizar ao máximo os sintomas prejudiciais do TDAH.

    No mais, não estou na pele de um TDAH, mas tenho minhas limitações também. Algumas delas, parte dos sintomas de um TDAH. Mas luto contra elas, como se fossem facetas do meu EGO, tornando-as cada dia mais fracas, com menos poder sobre mim.

    Outra coisa. Meditação. Já foi provado cientificamente os benefícios que ela exerce sobre nós. Mais especificamente, no que interessa ao blog, melhora bastante o deficit de atenção e a hiperatividade, pois conecta nosso cérebro a outras frequências.

    Já sobre o Budismo, ele nos ensina que podemos "viciar" nosso cérebro numa química diferente. Mudando nossos pensamentos (que são químicas). Eu li um livro ( A Arte da Felicidade - Dalai Lama ) que me ensinou sobre isso. Eu botei em prática. Algo do tipo "não quero e não preciso pensar nisso... eu gosto, quero e preciso pensar naquilo". E meu cérebro mudou. Minha vida também. Pra melhor!

    Não vou desejar força amigos. Vou desejar humildade. Pra reconhecer cada vez mais as fraquezas e possibilidades.

    Que assim seja!

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