A CURA DO TDAH






Um dos maiores sonhos dos portadores de TDAH, ou o maior sonho, é a cura definitiva.
Infelizmente, cientificamente isso ainda não é possível.
Ainda que você se encharque de remédios, faça terapia, faça coaching, a cura ainda não está ao seu alcance. O que a medicina e a psicologia conseguiram foi melhorar a convivência com o TDAH.
Mas isso é o bastante?
Aí está a chave da 'cura'.
Se o que você almeja é ficar igual ao seu irmão, ao seu pai ou ao seu marido ou esposa, desista; ainda não chegará lá. Mas você quer mesmo chegar, ser igual a eles?
A melhor forma de cura é você aprender a conviver com você mesmo. Aprender a se conhecer. Aprender a se respeitar e respeitar sua doença.
Mergulhe em você mesmo, conheça-se minuciosamente.
Em quais situações você procrastina?
O que dispara aquele desânimo quase paralisante?
Em que momento do dia você é mais disperso?
O que te irrita ao ponto da explosão?
Procure motivar-se.
Recentemente fui promovido no trabalho, conheço-me o bastante para saber que, se eu bobear, tudo vai por água abaixo. O que fazer? Faço tudo na hora, não adio nada, não empurro nada com a barriga. Mesmo aquelas coisas que são desagradáveis. Por quê?  Por que quero provar a mim mesmo que posso - com meu TDAH e tudo - vencer onde algumas pessoas 'normais' fracassaram. Quero me provar que, aos 53 anos, tenho força e coragem pra mudar o curso de uma filial que vai mal, e consequentemente uma vida que parecia sem solução.
E estou conseguindo. Mas chego ao final do dia esgotado. O blog é uma das principais vítimas dessa cansaço; diminuí muito minha presença nesse espaço. Mas estou me surpreendendo positivamente diante do desafio que aceitei.
Hoje eu tinha de intervir no comportamento de um funcionário; coisa detestável de fazer. Me dispus a conversar com ele logo ao chegar na empresa. Não o fiz. Quando percebi que estava procrastinando uma atitude que eu não podia deixar passar, chamei-o imediatamente e falei o que deveria ser falado.
Aquilo me fez bem, me senti aliviado. Se não o fizesse, a cada vez que ele repetisse o comportamento inadequado eu me repreenderia, mas adiaria de novo. Assim, resolvi de uma vez só.
Passo meus dias lutando contra minhas características negativas, mas minhas características positivas estão fazendo minha filial reagir diante das outras unidades.
Ao contrário da maioria das doenças, o TDAH nos propicia características que, se bem exploradas, bem canalizadas, podem ser úteis para nossas vidas.
Nossa criatividade, nosso hiper foco, nossa inquietude, nossa capacidade de improvisar, nossa capacidade de fazer mil coisas ao mesmo tempo...
Somos únicos, para o bem e para o mal. Mas se bem 'administrados' sobressaímos no que nos propusermos a fazer.
Deixe de lado o sonho de cura, a vontade de ser igual aos trouxas; admire-se, explore-se, usufrua-se e descubra todo o potencial de trabalho, de estudo, de amor, de vida que há em você.
Você vai se surpreender.
E estará muito próximo de se sentir curado!

Comentários

  1. Eu sempre tive essa "racionalização", ficar me perguntando por que e pra que estou fazendo isso e aquilo... pensar muito antes de dar um passo... mas minha falta de senso de alerta me faz dormir no ponto sempre. Pra mim, sempre foi mais difícil lutar contra meu mau comportamento, porque simplesmente não percebo nada. só vejo quando alguém fala. Parece que repito erros por preguiça de seguir o caminho mais trabalhoso, mas na verdade, é porque vivo em outro mundo.

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  2. Pessoal, quando vocês tiverem filhos, sério, façam leitura compartilhada com eles. Isso os deixará um pouco mais aptos a prestar atenção às coisas, já que eles não estarão defasados em relação à matéria e aos seus colegas, pois eles aprenderão de forma tranquila, só que tem que ser todo dia, se possível, o máximo que puderem.

    Outra coisa é com relação à memória auditiva de curto prazo. Vocês precisam treina-los para ver se eles têm isso. Por exemplo: peçam uma quantidade de coisas a serem feitas em sequencia. Peçam apenas uma coisa: "Filho, quando eu pedir para você pular, você pula, mas só quando eu disser Já!"

    Se ele fizer isso, então você já passa a pedir duas coisas em sequência. Ex.: "Filho, vá ao banheiro e pegue uma escova de dentes, mas só vai fazer depois de eu dizer Já!"

    E em seguida já peça algo com 3 comandos: "Vá à cozinha, pegue um copo d'água e encha-o de água", e assim sucessivamente.

    Isso vai desenvolver a memória auditiva de curto prazo, para que ele não fique igual ao TDA-H, que ouve as coisas, mas não tem certeza se ouviu ou não, daí fica perguntando mais de uma vez a mesma coisa.

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  3. Seria bom que vocês de vez em quando copiassem a parte mais interessante que viram por lá e colocassem aqui, além, é claro, de explicar como ocorreu com vocês, embora isso já possa acontecer naturalmente.

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  4. Ótimo texto!
    Meus parabéns, por conseguir a superar todas as barreiras do TDAH. Pois, tento em um período de texto controlar a minha impulsividade, mas quando vejo acabo machucando pessoas. Realmente é muito difícil!
    Saber que não há cura me deixa mais intrigante ainda!

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    1. Obrigado pelo elogio ao texto, quanto a superar as barreiras do TDAH temo não ser muito verdadeiro. Encaro o TDAH como o alcolismo, um dia de cada vez. Vivo tendo recaídas, escorregões e vitórias, não posso é desanimar.
      Admitir a doença e sua possibilidade de controle, e não de cura, é o primeiro passo para uma vida normal.
      Abraços
      Alexandre

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  5. É assim mesmo. É uma frustração, um bando de talentos desperdiçados talvez pela falta de paciência, talvz pela gula de querer tanta cosa ao mesmo tempo, talvez pelo irracional desejo de querer realizar as coisas na velocidade do planejamento, do pensamento. Do lado de fora, uma câmera filma tudo isso e só vê uma pessoa em silêncio, dentro de você um barulho gigante e um show de imagens em movimento e as histórias correndo soltas, mas sem muita ligação uma com a outra.

    Quem está de fora vai te julgar pelo que vê e pelo que ela conhece de si por dentro. Ela não tem TDAH, então vai te julgar qualquer outra coisa, menos uma pessoa com a cabeça cheia de pensamentos e essa frustração toda, que é, na maior parte das vezes, invisível para os outros, pois quando se manifesta, é em um quarto, ou num banheiro.

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  6. Seja bem vinda Nathalia, use esse espaço o quanto quiser, realmente aqui estamos todos no mesmo barco; aprendemos e dividimos uns com os outros.
    Abraços
    Alexandre

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  7. Anônimo, adorei seu comentário. A imagem externa de uma pessoa em silêncio com um barulho gigante no interior pode virar um post. rsrsrs É assim que eles nascem.
    Obrigado.
    Um abraço
    Alexandre

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  8. Valeu Léo!!!
    Abraços
    Alexandre

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  9. É isso aí, Guilherme, não temos motivos para abaixar nossas cabeças!
    Força e coragem!
    Abraços
    Alexandre

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  10. O mais importante mesmo é o que você já faz, Alexandre. Você sabe descrever bem, e também põe todos com os pés no chão. É disso que os TDAH precisam, serem reconhecidos por outros e ouvir dicas realistas, e com frequência, pois por mais que saibamos da realidade, ela se desvanece na nossa cabeça, precisando ser achada novamente.

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