TDAH FORJADO NA INFÂNCIA











Saltos impossíveis, escaladas improváveis, velocidades impensáveis.
Ambientes opressores, caminhos ásperos, esquinas pontiagudas.
A vida que não me cabia, a escola que não me absorvia, as ruas que não tinham saída.
Pipa, bola de gude,bicicleta, futebol, carrinho de rolimã, a sofreguidão do sonho.
O riso nos olhos, o riso na boca, o riso na alma, rindo da vida, sorrindo pra vida.
Atiradeira, brigas de rua, brincadeiras cruéis, o obscuro lado infantil.
Mas o sol surgia e no horizonte da vida a alma infantil voltava a brilhar.
E tome futebol, o goleiro incansável; o kamikase da bicicleta; o perdedor irascível das bolinhas de gude; o pé de vento que, antes de todos, pegava as pipas à deriva no céu.
Não conhecia o passo, apenas o salto; não conhecia o silêncio, sempre a música e o assobio; não conhecia o limite, tinha de rompê-lo; não conhecia o não, tinha de contradizê-lo.
Naquela vida em hiper velocidade, na hiper sofreguidão dos sonhos inalcançáveis; na hiper frustração diante do não; na hiper sensação de ser o último dia; forjava-se o edifício do TDAH.
A inconsequência infantil levada ao extremo na vida adulta, a velocidade dos passos transmuta-se em velocidade de decisões e atitudes impensadas; os saltos, outrora físicos, tornam-se subjetivos, mas ainda mais perigosos, atirando-me em abismos emocionais sem volta e sem reparação.
De novo no fundo do abismo, o TDAH me dá forças para reerguer-me pela enésima vez, curar minhas feridas (?) e enfrentar um novo ciclo de vida.
O menino hiperativo, de quem jamais me livrei, salta dentro de minha cabeça cobrando adrenalina, cobrando velocidade, cobrando o confronto com o desconhecido.
Tenho de mostrar a esse menino que o tempo passou, que o lugar dele é no passado, na saudade, nas gargalhadas das lembranças de família. Não será tarefa fácil, é um garoto sedutor, simpático, alegre, e queira eu ou não, é minha origem.
Não vou matá-lo, apenas nina-lo para que durma na macia cama dos sonhos e das lembranças.

Comentários

  1. Gosto muito de ler o que escreve. Não só pelo TDAH em si, mas porque é uma leitura super gostosa!
    Mas, uma pergunta...
    Mesmo medicado e fazendo o tratamento corretamente, ainda assim vejo você comentando dos sintomas da doença.
    Não melhorou?

    ResponderExcluir
  2. Em poucas palavras vc consegue descrever sentimentos tão confusos. Parabéns e não desista nunca!!! Um abraço!!

    ResponderExcluir
  3. O TDAH é realmente incrivel, na maioria das vezes nos derruba com tudo, sempre batendo cabeça e cometendo os mesmos erros. Porém a capacidade de se reerguer é muita rápida, de certa forma isso é ruim porque penso que não aprendemos com nossos erros porque mudamos o foco muito rápido e não refletimos com nosso erro.
    Conversando com algumas pessoas,venho aqui dá um conselho que vou seguir este ano.
    É um consenso geral que precisamos melhor? Sim, somos inconsequentes, nos sabotamos, repetimos os mesmo erros. Decidi que vou sim fazer terapia, para me ajudar com o TDAH e com os traumas do passado, provindos ou não do TDAH( é certo que muitos traumas que temos, consciente ou subconscientemente que moldaram nossa personalidade e nossas ações presentes vem do TDAH, outros não). Vou tomar a ritalina, porque não faz milagre mas ajuda muito mesmo, vou me policiar. Porém também decidi que não vou me transformar em outra pessoa, não vou perder minha essência para me moldar numa sociedade que parece querer robôs. Eu vejo pessoas maravilhosas, que não são TDAH´s, que são calmas e super sociáveis sendo caluniadas, sendo excluídas. Vou mudar o que acho que me prejudica, para meu bem estar, para ser feliz e não pelos outros. Obvio que algumas coisas vai melhorar com as pessoas, nossa impulsividade, nossa falação, nossa impossibilidade de calar mesmo achando que estamos certos, nossa inconsequência.
    Vou focar em coisas que realmente quis fazer, vou arranjar formas de descarregar meu excesso de energia mental e física.
    Estou falando isso, porque as vezes as pessoas falam: Vc precisa mudar, se não vai ficar sozinha pro resto da vida, não sei se por ser TDAH aprendi a aceitar os defeitos dos outros, porque infelizmente seu defeito sempre se sobressai mais que as qualidades. Eu ouvia isso e muitas vezes fiquei mal, sempre achei que se alguém e seu amigo, ele tem que lhe aceitar como você é, acho que a sociedade precisa aceitar mais as individualidades. O que eu fizer de mudança na minha vida como disse antes, vai ser por mim. Não quero perder minha essência de TDAH.
    É o que eu falo pra vocês. Não sei ficou muito confuso meu texto kkkkkk...

    ResponderExcluir
  4. Bom dia, amigo.
    Saúde é um negócio muito sério e nem sempre acertamos com os profissionais na primeira vez. Você vê como é importante tirar férias(rsrsrs) no caso pra você e não pra sua psicóloga. Alguém me disse em um comentário que seu objetivo é ganhar dois segundos antes de dizer as coisas e ofender as pessoas. Tente isso antes de se separar da sua esposa.
    Pra seguir o blog clique acima à direita em seguir este site e faça o seu cadastro.
    Um grande abraço e obrigado
    Alexandre

    ResponderExcluir
  5. Oi Aline
    Pois é, a hiperatividade mental é terrível, nos cobramos, não nos aquietamos jamais. Quando tudo está bom, mudamos. E nem sempre pra melhor.
    Abração e obrigado por participar.
    Alexandre

    ResponderExcluir
  6. Desculpem pelo TESTO, nossa, preciso trocar o vicio da TV pela leitura. Tá ficando terrível.

    ResponderExcluir
  7. Deixei um comentário aqui falando que ia tentar fazer você conhecer um outro tdah do rio de janeiro mas, não ví sua resposta, pois não lembro em qual post fiz o comentário. Lembro que pedi seu e-mail. Fiz um outro comentário longo no post muro das lamentações" esse eu lembro mas o último não sei onde eu deixei, estou muito curioso pela sua resposta

    ResponderExcluir
  8. Parabéns pelo seu texto e, principalmente, por sua reação diante do TDAH. É exatamente isso, você é a pessoa mais importante do universo e tem o infinito poder de mudar sua vida. Minha coach sempre me diz: Alexandre, vida é carreira solo! Não dependemos, nem podemos nos escorar em ninguém. Nossa vida nós é que fazemos.
    Parabéns novamente, esqueça as pessoas, falarão mal de todo mundo, sempre.
    Erga sua cabeça e mude a sua história.
    Um grande abraço com admiração
    Alexandre

    ResponderExcluir
  9. Sofri bullying naminha nocomeçoda minha adolescência por ser ateia, inclusive da minha professora que era evangélica ferrenha mas praticava as coisas do jeito torto dela.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Em geral os evangélicos são bitolados e autoritários, mas a cultura de Deus é muito forte e as pessoas não dão conta de viverem sem a onipresença Dele. A existência de Deus reduz a responsabilidade das pessoas sobre a própria vida. Repito o que disse ali em cima: ser ateia requer muita, muita coragem. As reações contrárias podem beirar a agressão; como da sua professora.

      Excluir
  10. Bom dia!
    Pois é, a vida nos molda. Nos padroniza.
    É difícil, ou impossível, imaginar como seria sua vida se seguisse aquele caminho da adolescência. Você estaria melhor, mais feliz, ou suas opções a teriam levado a ter uma vida meio 'marginal' 'underground'. Seria esse o caminho da felicidade?
    Nós TDAHs temos o hábito de ficarmos sonhando retroativamente; minha coach, Luciana Fiel, sempre me diz o seguinte: dá pra você mudar? Se não, esquece e construa sua vida a partir desse ponto.
    Essa é sua vida atual, amiga, o que você pode fazer a partir dela? Nunca se esqueça, o mundo é você. Sem você seu mundo acaba, faça dele o melhor possível.
    O que você foi, fez e pensou de alguma forma faz parte da pessoa que você é hoje e nunca sairá de você, mas aquele tempo passou e a pessoa que você é hoje precisa se desamarrar do passado pra caminhar mais leve para o futuro.
    Um grande abraço e obrigado por seu belo comentário. Por que você não escreve mais, pense nisso, ponha isso pra fora, desabafe. Muita gente vai se identificar com você.

    Alexandre

    ResponderExcluir
  11. Boa tarde, Alexandre! Obrigada por responder! Eu já tinha sido diagnosticada com TDAH quando criança (8 anos), mas a minha mãe não quis fazer o tratamento (medo dos efeitos colaterais). Então, fui empurrando a vida com a barriga e passe por experiências idênticas que são descritas aqui... Tive depressão, e depois de 2 anos tomando remédios (fluoxetina,escitalopram,rivotril), a depressão continuava mesmo tomando doses altas. Após uma crise muito forte, troquei de psiquiatra que na PRIMEIRA consulta me disse que eu era bipolar... Lá vou eu tomar lítio (tive uma reação fortíssima ao medicamento), e depois outros antipsicóticos... Minha falta de atenção piorou demais... Um dos remédios me deixou muito impulsiva e numa briga em casa tomei um vidro de rivotril... Após todo o drama do hospital, achei que ninguém poderia resolver meu problema, e como alguém aqui postou, fui lendo artigos científicos sobre doenças que são confundidas com bipolaridade, e achei a TDAH... Para a minha surpresa e ignorância, a doença permanece na vida adulta... Achei um especialista na minha cidade (3 meses de espera p/ consulta), que quando me atendeu, descreveu a minha vida sem que eu terminasse de contar um fato por completo... Me recomendou uma psiquiatra e uma Psicóloga para fazer os testes necessários para a confirmação do diagnóstico de TDAH. Finalmente encontrei esperança de ser "normal". Mas como ele disse e comentei acima, além de tomar medicamento, temos que fazer nossa parte... Temos que tratar as comorbidades (quando há alguma) e não esperar que o medicamento nos torne "outra pessoa", mas uma pessoa melhor...
    PS: Desculpa ter escrito tanto... Aproveitei p/ fazer um desabafo que talvez ajude outras pessoas também... E não vou me identificar, porque tenho vergonha... Abraços PS[2]: Já adicionei seu blog aos favoritos*

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

PANELA DE PRESSÃO TDAH: A DISFUNÇÃO EXECUTIVA E O CAOS DO TEMPO.

POR QUE PAREI DE TOMAR RITALINA.

DÍVIDAS, CONTAS ATRASADAS. A ROTINA DO TDAH.