O TDAH E O DÉFICIT DE INTELIGÊNCIA




O Peso das Palavras Veladas

Na infância essas coisas são ditas de forma velada, quando a criança não está presente: 'acho que esse menino tem um problema de aprendizado'; 'coitado, ele se esforça mas não há meio de aprender'. Isso tudo falado entre adultos, em voz baixa, achando que a criança não sabe ou não percebe que estão falando dela.

A condescendência é outra inimiga do tratamento correto e eficiente e colabora com a falsa ideia de falta de inteligência. Com 'pena' da dificuldade dos filhos, os pais não cobram ou não dão o suporte correto. Fazem as tarefas escolares pelos filhos, não buscam a postura correta das escolas e o TDAH vai crescendo na vida da criança.

O desconhecimento do TDAH no Brasil é outro aliado da doença e das falsas crenças que ele provoca, as escolas optam por ignorá-lo, alguns médicos também, e o transtorno vai se espalhando e distribuindo seu prejuízo democraticamente entre a população.

Não Somos Burros

A ignorância disseminou entre a população (incluindo aí muitos dos portadores) que o portador de TDAH é burro, tem dificuldade de aprender por ter déficit de inteligência. Isso é mentira!

Não somos burros, somos desatentos! Não aprendemos por que não conseguimos prestar atenção naquelas aulas monótonas, narcotizantes e intermináveis.

Ontem, na reunião do grupo Mente Confiante, um médico de sucesso e pai de um portador, falava sobre isso; o que nos prende a atenção é o que nos emociona. Somos seres emocionais; muito mais do que racionais. E é verdade; sempre fui excelente aluno naquilo que me interessou: história, geografia, literatura, sociologia, filosofia. São assuntos que amo, que viajo neles quando os estou estudando. Física e matemática são matérias que odeio, que desde a mais tenra infância aterrorizam meu sono.

A Emoção no Desafio do Cotidiano

Enquanto o médico falava viajei (claro né, rsrs) em minha vida e comecei a pensar em como me adaptei e gostei de trabalhar com assistência técnica de aparelhos celulares. Parece algo estranho, meio sem sentido, um portador de TDAH que trabalha com mão de obra de algo tão pequeno, tão minucioso.

Mas ontem estive pensando: em primeiro lugar cada aparelho é um desafio; em segundo lugar ocupa minhas mãos, exige um certo movimento; em terceiro, solucionar um defeito gera um sentimento de vitória gostoso, a derrota transforma-se em novos desafios, novos conhecimentos; em quarto lugar, adoro tecnologia, amo novidades, e isso, tenho a toda hora em minhas mãos. Aliado a isso tudo, tem a internet que amo e que é uma fonte inesgotável de informações (que adoro), de pesquisa e descobertas. Por incrível que pareça, encontrei emoção num 'simples' conserto de celular. Às vezes rio de mim mesmo quando percebo a expectativa que fico ao ligar um aparelho que apresentou um grau de dificuldade incomum. O aparelho funcionar equivale a um gol, uma grande vitória. Isso faz com que o dia a dia seja muito mais do que parece. Instintivamente a Jaque enxergou que eu me daria bem nisso, eu mesmo não enxergava a possibilidade de adaptar-me a essa profissão. Entrei meio que provisoriamente e estou adorando.

Dedique-se ao que te Emociona

Muita gente pode se achar incapaz de fazer um trabalho como esse, mas nunca por falta de inteligência. Mas por não extrair emoção disso, não enxergar da mesma forma que eu.

Participei de um programa da TV Brasil sobre TDAH e nele havia um entrevistado que, formado em jornalismo, se descobrira fazendo pequenos doces trabalhados, com mini desenhos e enfeites minúsculos. Quando vi pensei: credo, eu jamais faria isso na minha vida. Pois é, quanta gente fala isso da minha opção de vida. Os docinhos trabalhados despertam a emoção daquele jornalista, são arte pura na sua visão, dão sentido aos seus sentimentos.

Sou burro por não saber ou não conseguir fazer aquilo? Sou burro por não haver formado em Direito? Quanta gente chega pra mim e diz: eu não consigo aprender a mexer com esse celular. Sou burro pra tecnologia. O que a pessoa quis dizer foi: não gosto de tecnologia, não me interesso por celulares.

Essa é a chave da vida do portador; temos que nos dedicar àquilo que desperta nossa emoção. Fazer por fazer, pra seguir o exemplo ou a vontade de outras pessoas é fracasso na certa. Einstein foi considerado burro nos primeiros anos da escola regular, e mudou o mundo! Mudou o mundo por que pensou a física de maneira diferente, quebrou padrões e tabus. Ele tinha TDAH? Não sei, mas detonou seus críticos quando encontrou seu caminho, o que o emocionou, o que deu sentido a sua vida.

Então, chega dessa conversa de que TDAH é burro.

Eu não sou! E exijo que me respeitem!



Leia Também

  • TDAH: RECOMEÇO OU RENASCIMENTO:                                                                       Uma análise sobre como o autoconhecimento permite ao portador renascer para novas profissões e possibilidades.

  • PANELA DE PRESSÃO TDAH:                                                                                          Entenda como a pressão do tempo e a disfunção executiva afetam o desempenho, sem relação com a inteligência.

  • AMOR TDAH:                                                                                                                                 A mesma intensidade emocional que dita o sucesso profissional rege os vínculos afetivos do portador.


O TDAH não compromete o quociente de inteligência (QI), mas afeta as funções executivas. Entenda a ciência por trás do diagnóstico na — ABDA: Associação Brasileira do Déficit de Atenção












































































Comentários

  1. Sempre fui considerado vagabundo, meio que o ovelha-negra da família, apesar de todos sempre acreditarem demais, terem certeza do meu potencial e lembrarem isso o tempo inteiro, ainda que não com palavras, mas olhares que condenam e me fuzilam de uma forma a abrir um buraco na alma - apesar de ser tão cobrado, ninguém cobra mais de mim do que eu mesmo -. Nunca tinha pensado dessa forma, mas a verdade é bem essa, somos emocionais ao extremo, aquilo que nos apaixona, é aquilo que nós realizamos com maestria. Pensei nisso após ler esse texto, e não sei se você irá concordar, mas nesse ponto, o nosso transtorno lembra o autismo, claro que, guardadas as devidas proporções. Ainda estou me adaptando a dosagem da ritalina que devo tomar diariamente, mas ja percebi que os dois comprimidos de 10mg estão fracos, fraquissimos. O tratamento tem sido fenomenal, apesar de estarem fracos, esses dois comprimidos já fizeram uma diferença na minha vida inexplicável, hoje vejo minha mãe chorar ao entrar em meu quarto e me ver estudando, talvez por arrependimento de tudo que ela possa ter pensado, mas só sei que as coisas estão mudando, graças ao diagnóstico, graças ao tratamento, e de certa forma, graças a seu blog, onde me reconheço em suas palavras e as carrego como aprendizado. O tempo vai passar e as coisas vão se acertar, isso é fato!!

    ResponderExcluir
  2. Saber-se TDAH é uma benção em nossas vidas.
    Ao nos conhecer, podemos atuar em nossas vidas, agir em nosso favor.
    Espalhar o conhecimento sobre o TDAH diminui o preconceito, esse sim, uma doença que é fruto da ignorância e que gera esse tipo de estigma.
    Um abraço e obrigado
    Alexandre

    ResponderExcluir
  3. Oi, Sissi!
    Não posso dizer o mesmo.
    A escola sempre foi uma tortura pra mim. Acho tudo aquilo um saco, desnecessário e inútil.
    Tenho 51 anos e nunca precisei de um logarítimo,de um cálculo de massa molecular de um átomo ou mesmo nunca descobri pra quê eu precisei saber como se dava a reprodução de um platelminto. Uma palhaçada!
    Não me falta inteligência, falta-me estímulo e motivação.
    Abraços
    Alexandre

    ResponderExcluir
  4. Eu também era considerado burro. Alguns professores diziam na frente de todos os alunos (e junto com eles também) que eu iria puxar carroça futuramente. Por enquanto eu não tenho muito que discordar dele, pois eu não vejo mais sentido na minha vida, perdi meu ânimo e prazer até para fazer o que antes eu amava como jogar video game e desenhar. Sinto às vezes saudades do TOC por causa da obsessão, ela é que fazia com que eu ficasse horas e mais horas fazendo uma mesma atividade. Infelizmente eu tomei tanta fluoxetina na minha vida, que fiquei ultra hiperativo ao ponto de nunca mais ter assistido tv e ter começado a não gostar mais de ver filmes. Lembro até que algumas pessoas faziam questão de me emprestar alguns filmes, mas eu fazia de tudo para não pegar emprestado, pois eu sabia que eu não iria conseguir ficar mais de uma hora sentado no sofá. Às vezes tenho a impressão de que tenho uma leve depressão, pois tudo me desanima muito rápido. Basta uma dificuldade para eu sentir que minhas capacidades são inferiores e chego a quase desistir daquilo que tanto quero.

    ResponderExcluir
  5. Obrigado pelo comentário, porem até hoje não descobri o que realmente me interessa, não sou um bom aluno, infelizmente a psiquiatra corto a minha ritalina quando eu tava na primeira serie e isso me prejudicou por estuda numa escola pública, estou seriamente pensando em estuda em uma escola particular com maior grau de rigidez e se possível volta algumas series pra descobri o que realmente sou bom já que os estudo não me interessou muito sou preguiçoso mais muito desligado e desorganizado me perco na minha própria bagunça, as vezes me perco até andando na cidade!
    Infelizmente descobri isso um pouco tarde, faço parte daquela maldita progressão continuada estou sentindo ódio de mim mesmo por ter desistido de tantas coisas!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. É barra né!
      É muito difícil dar palpite na vida alheia, mas no meu caso e no de minha filha mais nova o que ajudou foi o oposto: ir para uma escola mais fácil de ser aprovado. A reprovação mata nossa auto estima. Não se culpe por não gostar de estudar, a forma com que a educação é ministrada é um saco, é feita nos mesmos moldes há 50, 100 anos. O mundo mudou e a educação continua na idade da pedra lascada. Tente encontrar paralelamente à escola, algo que te motive e te dê prazer, isso estimula a vida como um todo. Até a escola fica menos sacal.
      Informe-se sobre o TDAH, conheça-o à fundo e vc passará a reconhecer onde ele está agindo e te prejudicando; só assim vc conseguirá combate-lo sem remédio.
      Procure outro médico, esse não tá com nada!
      Um abraço
      Alexandre

      Excluir
  6. futebol clube costa gama4 de novembro de 2015 às 05:25

    Tomo Venvanse pra poder levantar da cama mas muitas vezes me sinto triste af de ficar sozinha e deitada sem ningem por perto

    ResponderExcluir
  7. Concordo!
    Assim como negar a existência de uma doença reconhecida pela OMS é um absurdo. Vivemos num mundo estranho, onde as certezas pessoais se sobrepõem o bem estar coletivo. Mas o rótulo não é necessariamente mal, depende do que fazemos com ele.
    Obrigado por sua participação!
    Abraços
    Alexandre

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

PANELA DE PRESSÃO TDAH: A DISFUNÇÃO EXECUTIVA E O CAOS DO TEMPO.

POR QUE PAREI DE TOMAR RITALINA.

DÍVIDAS, CONTAS ATRASADAS. A ROTINA DO TDAH.